SERÁ QUE SILVÉRIO TEM RAZÃO?

Publicada em 10/10/2016 às 13:12

humberto

HUMBERTO PINHO DA SILVA – Porto, Portugal

No domingo passado, ao subir a calçada dos Clérigos, deparei com o Silvério, velho amigo de meu pai.

Vinha cambaleante, pensativo, taciturno, amparando-se na esguia bengala de castão de bronze, adquirida nos anos sessenta, numa das raras viagens que fizera a Lisboa.

Estreitou-me ao peito, batendo rijamente com a mão direita espalmada, nas costas.

-“Que é feito de ti?” – perguntou-me.

Como respondesse com o formalistico: “tudo bem”, Silvério revelou-me a angústia em que vive, pelas “leis”, que ai vêem:

– “É o que te digo: se soubesse, quando era novo, o que sei hoje, não poupava um chavo!…

Passei quarenta anos a trabalhar! – Prosseguiu. – Poupava o que podia. Amealhava sempre. Nunca viajei: as minhas férias, eram na praia ou na aldeia, onde nasci.

Comprei a casinha, ainda solteiro. Melhorei, a que tinha na aldeia, e adquiri – já aposentado, – apartamento, na praia, visto o médico recomendar-me banhos de mar…

Agora, querem-me taxar, porque poupei! Vê lá tu! Diz-me: se vale a pena economizar?! Antes tivesse viajado por essa Europa. Desbaratado o dinheiro em hotéis e restaurantes…”

Como lhe dissesse que não acreditasse em tudo que dizem, repostou, levemente irado:

– “Querem taxar até o Sol! Em Portugal, só se pode ser rico ou pobre. Os remediados, sempre foram espoliados! …

Trabalhei, para ter vida mais tranquila… e agora é o que se vê! …

Os ricos, aferrolham o dinheiro, no estrangeiro. Mas nós?; onde vamos guardar o que poupamos? No banco? Não rende… e até nos tiram o pouco que temos…

– Acredita: estou arrependido. Antes o tivesse gasto em divertimentos…

Dizem que sou rico! Porque poupei e tenho três casas! …”

– É preciso ter paciência… Vai ver que não é bem assim, como dizem…” – objectei, no intuito de o acalmar.

Mas, Silvério, quase a chorar, continuou:

– “Olha: como subiram as contribuições! … ( IMI). Subiram, quando as casas valem quase metade do preço justo! …Parece que têm inveja, de quem poupa!…”

Tínhamos chegado à Praça dos Leões. Silvério enveredou para Cedofeita. Acompanhei-o até Carlos Alberto.

Junto ao monumento do soldado desconhecido, apertou-me a mão, com força, e, apontando com o indicador, a estátua de Henrique Moreira, disse-me:

– “Estes já lá estão!… Em breve para lá vou!…”

E balanceando, sempre amparado na sua bengala, caminhou pela rua fora…

Será que o Silvério tem razão?

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