Fertilizante: o vilão que se transformou em herói da pátria
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Valter Casarin, Coordenador Científico da NPV

Em meio a toda a turbulência gerada pelo conflito entre Rússia e Ucrânia foi revelado o quanto a agricultura brasileira depende do uso de fertilizantes e, sobretudo, o quanto o fertilizante é um insumo fundamental para a produção de alimentos. Com isso, o tema fertilizante tornou-se protagonista na mídia, bem como é tema em várias lives. O fertilizante sempre foi, equivocadamente, considerado um produto tóxico, muitas vezes confundido com os agrotóxicos, e toma, agora, sua real posição de fornecer nutrientes para as plantas, ou seja, o alimento das plantas.

O Brasil é um país com vocação agrícola, onde o setor tem constantemente batido recordes de produção. Vale lembrar que o Brasil está entre os maiores produtores mundiais de soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, café, laranja, arroz, cacau, entre outras culturas. Além disso, possui o maior rebanho bovino do mundo e é o maior exportador desta carne. Também não podemos esquecer que nosso país é um dos líderes mundiais de produção de carne de frango e de suínos. Aqui, precisamos lembrar que o fertilizante é um dos principais insumos a contribuir com o sucesso agrícola brasileiro.

Nossa nação se tornou uma grande potência agrícola mundial utilizando uma área de aproximadamente 8% de seu território. Com essa pequena parcela, a produção agrícola brasileira é responsável por alimentar o equivalente a 800 milhões de pessoas. Em outras palavras, podemos afirmar que o Brasil é seguramente o “celeiro do planeta”, contribuindo de forma significativa pela segurança alimentar de uma população mundial crescente. É dessa forma que o fertilizante se tornou a principal inovação que mais salvou vidas na história da humanidade.

A realidade é que, ao mesmo tempo que nossa agricultura é pujante, ela é dependente do uso de fertilizantes. Em função das características dos nossos solos, naturalmente pobres em nutrientes, a aplicação de fertilizantes por meio da adubação é uma necessidade imprescindível. Atualmente, o Brasil importa 85% do seu consumo de fertilizantes, principalmente dos nitrogenados, fosfatados e potássicos, os quais fornecem, respectivamente, o nitrogênio, o fósforo e o potássio. Destes nutrientes, o potássio é aquele com maior dependência de importação, representando uma importação superior a 90% do seu consumo. Dados recentes mostram que, em relação à produção mundial de potássio, nosso país produz 0,8%, mas consome aproximadamente 15% da produção mundial.

Analisando a importância dos fertilizantes em âmbito mundial, verifica-se que a aplicação de nitrogênio, fósforo e outros nutrientes usados para promover o crescimento de plantas e animais trouxe enormes benefícios para a produção de energia e, sobretudo, para a alimentação da população mundial. Estimativas mostram que os fertilizantes ajudam metade dos 7 bilhões de seres humanos a se alimentar e a garantir a segurança alimentar no século XXI.

A realidade desta crise atual mostra a dependência da agricultura tradicional aos fertilizantes minerais, os quais são diretamente responsáveis pelo aumento dos rendimentos das culturas agrícolas. Neste momento são lançadas alternativas de substituição, particularmente os fertilizantes orgânicos, mas no curto prazo, dificilmente é possível substituir os fertilizantes minerais por orgânicos, principalmente pelos menores teores do fertilizante orgânico e a eficiência não é satisfatória.

Por outro lado, o Brasil procura aumentar a produção de fertilizantes e reduzir a dependência de importações. Com a implantação do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), o objetivo é, até 2050, reduzir a importação dos atuais 85% para 45%. O PNF introduziu novas regras tributárias para os fertilizantes ao mesmo tempo em que busca ajudar as empresas privadas a aumentar a capacidade de produção. Ele foi elaborado para reforçar a competitividade da produção e a distribuição de fertilizantes no Brasil de forma sustentável.

Jornal Nova Fronteira