O RETORNO À CASA PATERNA

Publicada em 22/01/2016 às 14:21

Ronaldo Ausone Lupinacci*

O ano de 2016 se inicia carregado de interrogações e ameaças, tanto no âmbito nacional como no internacional. No âmbito nacional vimos o país submergir ainda mais profundamente em suas inúmeras crises, analisadas em artigos anteriores, motivo pelo qual sobre elas não vou me estender. Mas, é preciso voltar os olhos para o panorama internacional, até porque acaba influenciando a situação nacional. E, como o futuro próximo tende a ser o prolongamento do presente cabe apresentar, inicialmente, uma ligeira exemplificação.

Tensões religiosas, políticas, econômicas, sociais emergiram num cadinho, expelindo fumaça ameaçadora. Os brutais atentados terroristas realizados na França – prolongamento da investida criminosa do Estado Islâmico – ações análogas desencadeadas por organizações muçulmanas afins, como a Al Qaeda e o Boko Haram; guerras fratricidas na Síria, no Iraque, no Afeganistão, e na Líbia; as migrações em massa para a Europa, apresentadas como resultado de tais turbulências, mas que na verdade integram plano para gerar o caos naquele continente; as permanentes fricções entre Israel e os palestinos; as investidas russas na Ucrânia e na Geórgia e a pretensão de Putin quanto a “rever” a independência dos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), bem como sua ameaça de usar armas nucleares para resolver disputas territoriais, e, a correlata fabricação de mais 40 mísseis intercontinentais; o contencioso entre a China e outros países acerca da soberania sobre ilhas situadas no oceano Pacífico; aprovação no Japão de lei que pôs fim ao pacifismo pós-guerra; promessa de fornecimento de armamento pesado pelos Estados Unidos aos países do Leste europeu; são alguns poucos fatos que anotei, quase ao acaso, nas longas listas de meus arquivos.

Já agora, no início de 2016, a Coréia do Norte anunciou ter detonado bomba de hidrogênio, o que, a ser verdade, lhe dará enorme poder de destruição, e, mais provavelmente, conexas possibilidades de chantagem. Seria possível, também, acrescentar fatos de conteúdo econômico, como a próxima bancarrota da Rússia, a desaceleração chinesa, as previsíveis sequelas da falência da Venezuela e da Grécia. E, na esfera estritamente religiosa – no que não vou me deter – a devastação causada pelo Concílio Vaticano II gerou fatos escabrosos, inimagináveis há algum tempo atrás. Desse panorama sombrio – conquanto tenham surgido concomitantemente fatores de esperança – só se pode prever a intensificação de conflitos, desde os interpessoais, até aqueles que envolvem dissídios intestinos dentro de um país, até outros mais amplos que resultem em guerras entre nações. Em síntese, o mundo não está em paz. E, não recobrará a paz enquanto os homens continuarem a pensar e agir como vêm fazendo.

Se a paz é o fruto da justiça (“opus justitiae pax”), e o sentido mais alto da palavra justiça se entrelaça com os direitos de Deus, constata-se que a situação geral de anormalidade decorre muito principalmente da inobservância do primeiro mandamento de sua Lei: amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos (Mateus, 22; 37). Cabe assinalar que o desprezo pelo primeiro mandamento gera o desrespeito aos outros nove, e, portanto àqueles que asseguram a concórdia, a harmonia, a ordem, a paz social enfim (do quarto ao décimo).

O que significa amar a Deus sobre todas as coisas? Para responder recorro, obliquamente, ao conceito de justiça: a vontade constante e perpétua de dar a cada um o que é seu. E, daí o transponho para o amor de Deus: a vontade constante e perpétua de proceder (pensar, falar e agir) com absoluta retidão para amoldar-se ao Criador. Isso é difícil – corresponde à “porta estreita” de que falam os Evangelhos – dada a nossa natureza frágil de um lado, e, má de outro (Mateus, 7; 13). Mas, é perfeitamente possível, como extraímos dos exemplos dos Santos e, até mesmo das pessoas simplesmente virtuosas.

Como consequência temos, também no Evangelho, a promessa do prêmio: buscai primeiro o que é de Deus e tudo o mais se vos dará por acréscimo (Mateus, 6;33). Santo Agostinho ensina que os indivíduos serão recompensados ou punidos na vida eterna, mas as nações, como não têm vida eterna, colhem os frutos do bem ou do mal que praticaram aqui mesmo na Terra. E, por isso as guerras e outras calamidades como a fome, a miséria, a escravidão, advém de sua própria torpeza. Daí se infere que a recíproca é verdadeira: evitai e recusai o que é de Deus e tudo o mais vos será retirado por acréscimo. Se a regra é válida para os indivíduos, tanto mais o é para os povos. Como, atualmente, o império da torpeza se expande em marcha acelerada por todo o planeta, as relações de causa e efeito apontam em direção ao caos mais sinistro. Nele adentraremos em 2016? Se não for em 2016, decerto não irá demorar muito mais.

Nos Evangelhos se lê a parábola do filho pródigo, aquele que dissipou os bens que lhe dera o pai, e que somente voltou à casa paterna quando se viu comendo o alimento dos porcos (Lucas, 15; 11-32). Tais são alguns dos seres humanos, e tais foram muitas sociedades ao longo da História. Outros nem assim se corrigiram e, portanto, pereceram. E, outros foram destruídos diretamente pela ira divina, como os sodomitas, pulverizados pela explosão de um asteroide (1).

Penso, então, que a humanidade terá de colher, ainda, muitas consequências de seus desvios, extremamente amargas, até que – aquilo que sobrar dela – decida a voltar à casa paterna. Mas voltará – disto podemos estar certos – e, este é o ideal que nos deve animar, mesmo antevendo que as convulsões que se aproximam poderão nos deixar, temporariamente, nas condições materiais dos séculos XVIII ou XIX. Pois é probabilíssimo, também, que as armas aniquiladoras, atômicas ou não, um dia serão usadas lançando rastro de destruição jamais visto. Os conflitos bélicos datam de mais de 10.000 anos (2), mas, antes, inexistiam os instrumentos de destruição letais como os de hoje.

Assim, é o momento de refletir sobre a excelência da Civilização Cristã que teve seu despontar com o edito do imperador Constantino no ano de 313 de nossa era e, sob o ponto de vista da aparência, perdurou até a Primeira Grande Guerra (1914-1918), embora já combalida por séculos de infidelidade e decadência. A Civilização Cristã surgiu sobre os escombros do Império Romano e foi lentamente se expandindo e se aperfeiçoando até chegar ao esplendor possível nas condições da Idade Média. Apesar dos fatores de corrosão – que, também, muito lentamente a minaram – produziu extraordinários frutos na Europa e na América, sobretudo. A ela devemos, por exemplo, o princípio da supremacia do Direito, os hospitais, as universidades, o florescimento da cultura, das ciências, a abolição da escravidão, entre tantos outros benefícios conforme ensinou o Papa Leão XIII na Encíclica Immortale Dei, nas palavras com as quais encerro este texto:

“28. Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. (…). Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.

29. Se a Europa cristã domou as nações bárbaras e as fez passar da ferocidade para a mansidão, da superstição para a verdade; se repeliu vitoriosamente as invasões muçulmanas, se guardou a supremacia da civilização, e se, em tudo que faz honra à humanidade, constantemente e em toda parte se mostrou guia e mestra; se brindou os povos com a verdadeira liberdade sob essas diversas formas, se sapientissimamente fundou uma multidão de obras para o alívio das misérias; é fora de toda dúvida que, assim, ela é grandemente devedora à religião, sob cuja inspiração e com cujo auxílio empreendeu e realizou tão grandes coisas.”

(1) http://cienciaconfirmaigreja.blogspot.com.br/2012/12/sodoma-e-gomorra-foram-destruidas-por.html
(2) http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/massacre-violento-no-quenia-e-o-relato-de-guerra-mais-antigo-da-humanidade

*O autor é advogado e pecuarista

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