Plantar, cultivar e colher: As três coisas que Jair mais gostava

Publicada em 09/12/2019 às 09:33

Uma história de vida breve, simples e tranquila. Assim foi a história de Jair Mota Silva.

Resolvi escrever este registro porque, após a partida do nosso amado Jair Mota Silva no dia 27 de outubro de 2019, eu e nossos filhos Felipe e Leonardo recebemos muitas manifestações de solidariedade e conforto, as quais agradecemos de todo o coração. Porém, o que mais nos chamou a atenção, foi o quanto Jair era querido e respeitado no meio do agronegócio, especialmente.

Então, após ouvir relatos de pessoas que conviveram com ele por muitos anos, decidi registrar um pouco da história de Jair aqui no Oeste da Bahia, uma forma de eternizar o trabalho que ele tanto amava e se dedicava.

Formado em técnico agropecuária em Belo Jardim (PE), Jair recebeu um convite para morar aqui na região e estagiar na Algodoeira São Miguel. Era início dos anos 90 e havia pouquíssimas áreas com plantio de algodão. Após estágio, Jair conquistou o seu primeiro emprego como classificador de fibra de algodão.

Entre 1990 e 1997, Jair conheceu Paulo Jackson, Dr. Felipe Alberto Griner e outros profissionais de destaque no agronegócio, entre eles, Pedro Matnana da Mattana Consultoria Agronômica, e a vida os aproximou.

“Daquele período de 1993 e 1994 guardo a imagem do jovem Jair Mota, que se manteve a mesma ao longo destes 26 anos onde tivemos outros encontros profissionais e também foi construída a nossa amizade, onde destacaria: a retidão de caráter; o comprometimento; a motivação; a criatividade e o esmero (sempre entregou mais e melhor do havia sido solicitado e orientado); e o espírito competitivo (desejável quando se buscam objetivos audaciosos), mas sempre mantendo a lealdade nos relacionamentos”, diz um trecho da mensagem que ele me enviou há poucos dias.

Voltando um pouco no tempo, foi no período em que Jair trabalhava na Algodoeira São Miguel que nos conhecemos, eu morava no interior do Piauí, onde nossa história começou, por fim, casamos e retornamos para Petrolina (PE), lá ele trabalhou com assistência técnica no plantio de tomate na empresa Cica.

Em função da traça do tomateiro a cultura foi extinta da região do Vale do São Francisco, e o conhecimento de Jair junto à cultura do algodão rendeu um novo convite, desta vez para trabalhar na fazenda São Francisco, de Ademar Antônio Marçal. Mais uma vez o Oeste da Bahia nos chamava. Voltamos e aqui nossas raízes se fortaleceram. “Ele chegou para fazer algodão e saiu, fazendo algodão”, lembra Ademar Marçal, ao falar sobre Jair, que trabalhou na fazenda de 1998 a 2005. “Ele fazia muito bem tudo o que fazia. O mais interessante é que fazia com brilho nos olhos e a satisfação em fazer da atividade, um prazer, enfrentando todas as dificuldades com um sorriso”, completa Ademar.

“Jair Mota, você fará falta, pois era um Homem de caráter, honesto, colocava a família Sempre em primeiro lugar, profissional exemplar, amigo leal e de uma alegria imensa. Não tinha tempo ruim, você alegrava o ambiente. Só tenho a agradecer”.
Alexandre Magno Portes Gualberto.

Depois de implantar o algodão, acompanhar a instalação de uma usina destinada a fibra e responder por todas as assistências técnica das culturas de algodão e soja, Jair, como gerente de produção, resolve buscar novos desafios e deixa a Fazenda São Francisco, porém, permaneceu uma forte relação de amizade e bem querer com os proprietários Ademar e Célia, extensiva a muitos funcionários como Nega, por quem ele tinha um carinho especial.

Em 2007 assume a gerência de duas grandes fazendas do Grupo Arakatu, a Morena totalmente irrigada com 18 pivôs instalados que cultivava café, soja, milho, algodão e hortifruti. E a Fazenda Bonanza, com uma área de 4 mil hectares, na região da Bela Vista, com o cultivo de soja e algodão considerada a “menina dos olhos de Jair”. O sócio diretor do Grupo, Herman Burema descreve: “Jair, para a Arakatu foi um pilar forte, que vestia a camisa, abraçava os empreendimentos com muita dedicação e não media esforços. Jair era a fazenda e a fazenda era Jair”, diz.

Foi ali que ele colocou a equipe que já o acompanhava há muito tempo como Tonho Bala, Pingo e outros. Lá ele se sentia mais à vontade, era onde ele mais ficava, apesar da Morena exigir trabalho redobrado pela dimensão e as diversas culturas implantadas.

Ele fazia a recomendação técnica das duas fazendas e a gerência geral, inclusive das equipes e apesar de serem fazendas de características totalmente diferentes, ele conduzia ambas de forma ímpar, com competência e afinco. Foi assim até 2012 quando deixou a gerência das fazendas e partiu para uma nova empreitada, no Grupo Uirapuru. Lá vinha mais um novo desafio, em uma fazenda que ficava a 300 km de distância de Barreiras, onde moramos.

Na Uirapuru, na época, ainda com áreas sendo abertas e corrigidas, o trabalho foi grande para ele e toda a equipe antiga que continuava a lhe acompanhar. A ela se juntaram novos funcionários como Padilha, Neguinho e Baiano que se integraram totalmente. Para Jair a prioridade sempre foi manter a equipe unida e estável, principalmente na Uirapuru, que demandava jornadas de trabalho de 15 dias seguidos até o retorno para casa, com outras tantas horas de estrada. Ele se desdobrava para que a equipe se sentisse bem, considerando estes entraves.

Foi na Uirapuru que Jair construiu uma nova família, paralela à nossa, biológica. Lá, encontrou pessoas que passaram a fazer o papel de irmãos, irmãs, pai e mãe. Uma família do coração nascia naquele local. A relação que construiu com Sérgio Nogueira perpassou a de patrão e funcionário. Eram confidentes, amigos e muito próximos, pai e filho, de certa forma. “O que começou como uma relação profissional acabou se tornando algo muito maior, uma grande amizade, que também me ensinou a fazer agricultura rentável no Oeste da Bahia”, relembra Sérgio Nogueira.

A história de Jair, definitivamente se misturou a da Fazenda Uirapuru e todos os seus funcionários. “Ele representava o coração da fazenda, bombeava energia para que toda a equipe pudesse trabalhar e esse legado fica. Hoje é possível sentir que a equipe comandada por Jair, tenta, de todas as formas, dar sequência aos seus ensinamentos e as suas orientações”, diz a gerente administrativa da fazenda, Maria Becker.

Na Uirapuru – onde ficou até os seus últimos dias – porém, anos antes, em 2014, ele reencontra Ederson Pedro Oldoni, com quem havia trabalhado em 2008, no Grupo Arakatu. Entre uma conversa e outra, revelações de projetos profissionais particulares, surge algo em comum. “Chegamos à conclusão que dois dinheiros pequenos virariam um maior”, relembra Ederson, foi aí que nasceu o projeto de produção de bananas, a BOA (Bananas do Oeste Associados). Jair continuava na Uirapuru e tocava, junto com o sócio, a área que somente em 2016 saiu do papel e ganhou forma.

“Se pudesse voltar atrás e escolher, eu escolheria de novo o Jair como sócio, ele sempre tinha um conselho, algo a agregar. A maior dificuldade hoje é seguir o legado dele, porque ele faz muita falta, mas o mínimo que posso fazer é dar continuidade ao nosso negócio e manter ele na lembrança”, descreve o sócio, Ederson Oldoni.

E assim estamos seguindo, na certeza de que Jair é insubstituível, porém, encontramos força na sua própria história para caminharmos. E para finalizar esta resumida narrativa, que nem de longe descreve a pessoa especial que Jair foi, transcrevo trecho de uma mensagem escrita pelo nosso filho Felipe, que traduz um pouco mais quem ele foi. “O senhor deixa em mim a sua essência, moldada sob os princípios da bondade, do certo pelo certo e da humildade. O senhor nunca esbanjou o que tinha ou não, o que era ou não, apenas gostava de viver e fazer o que mais gostava, trabalhar no campo e desfrutar da mulher e dos filhos nos finais de semana”.

Em meu nome e dos nossos filhos, muito obrigada a cada um que ajudou a escrever a história de vida (tão breve, mas tão intensa) de Jair. Agradecemos a todas as manifestações de carinho e de conforto, as orações e afagos, eles nos consolam e nos fazem seguir adiante.

Recebam o nosso mais forte abraço.

Jackline Passos de Moraes Mota e filhos Felipe Mota e Leonardo Mota.

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