AS EXCELÊNCIAS DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Publicada em 14/07/2021 às 08:02

Ronaldo Ausone Lupinacci*

Elucidativa matéria publicada por Luis Dufaur na revista de cultura e atualidades denominada Catolicismo n.º 676, de abril de 2007 enfocou as investigações de nova geração de historiadores e outros especialistas, voltada para o estudo consciencioso da Cristandade, que vem sendo lentamente demolida e difamada há séculos, mas que deverá ressurgir dos escombros da atual civilização.

As excelências da Civilização Cristã foram sistematicamente olvidadas quando não denegridas, de modo que hoje as ignoramos. Eu mesmo só conhecia tais méritos superficialmente. A tese central dos mencionados estudiosos para a recuperação da verdade objetiva reside em que a civilização ocidental é a única que merece plenamente este nome, embora vários povos (gregos, romanos, germanos, árabes, persas) tivessem dado a sua contribuição.

A civilização cristã a rigor nasceu com Nosso Senhor Jesus Cristo, mas só começou a tomar forma a partir da liberdade dada à da Igreja Católica pelo imperador Constantino (ano 313 de nossa era). Desde então, depois das sucessivas invasões de bárbaros que sepultaram a civilização romana no caos, a sociedade européia passou por um lento progresso durante a Idade Média (séculos V a XV), e, sob certos aspectos, até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com o fim da Belle Èpoque.

O historiador Rodney Stark observa que existiram outras grandes civilizações (egípcia, chinesa, indiana, etc.), mas todas ficaram estagnadas e decaíram lentamente, explicando-se a pujança da Civilização Ocidental pela religião católica porque as religiões pagãs originaram-se de lendas fantásticas impostas sem explicação, ao passo que a católica incitava os fiéis a aprofundar as racionalmente as verdades da fé. Os monges medievais aplicaram a lógica racional à vida quotidiana produzindo frutos em todos os campos da atividade humana.

O Prof. Thomas E. Woods, um dos integrantes mais recentes desta corrente de pesquisadores, disse que nenhum historiador profissional honesto hoje acredita na cantilena repetida durante muito tempo contra a Cristandade, ou seja, o conjunto de povos cristãos que se formou após o caos derivado do esfacelamento do Império Romano. A mesma conclusão se lê em https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/historia/idade-media-idade-trevas.htm.

Na impossibilidade de discorrer sobre todos os êxitos alcançados no longo trajeto histórico, que durou mais de mil anos, irei mencionar, de maneira sucinta, apenas alguns pontos e alguns poucos nomes.

O primeiro assunto a destacar correspondeu à elevação moral da sociedade que havia sido devastada pelo paganismo e pelas invasões bárbaras. Para isso colaborou decisivamente a obra de São Bento com a ordem religiosa por ele fundada (beneditina), e, que inspirou outras como as dos franciscanos, dominicanos, jesuítas, etc.. Do aprimoramento moral brotou o aprimoramento intelectual representado pela filosofia escolástica que atingiu um ápice com São Tomás de Aquino.

Foram notáveis, os avanços científicos e tecnológicos a partir de então. Por exemplo: Nicolau Steno, pai da Geologia, Atanásio Kircher, pai da egiptologia, Giambattista Riccioli, que mediu a aceleração da gravidade terrestre, Roger Boscovich, pai da moderna teoria atômica. A BBC de Londres divulgou substanciosa notícia sobre Alcuíno de York na qual afirma que a Idade Média foi uma era muito mais vibrante intelectualmente do que se pode imaginar, dando como exemplo os desafios do mesmo Alcuíno  que consolidaram na Europa as bases para um ramo da matemática chamado análise combinatória – tipo de cálculo que hoje está por trás da programação de computadores e da criptografia moderna[1].

Dentre as iniciativas surgidas durante o Medievo podem ser alinhadas:

– a minúscula carolíngia (assim denominada porque oriunda da atuação do imperador Carlos Magno), antes da qual os manuscritos não tinham minúsculas, pontuações ou espaços em branco entre as palavras, e, a partir da qual todos puderam ler com facilidade, motivo pelo qual a invenção foi equiparada por Philippe Wolf à descoberta da imprensa;
– as universidades, centros de cultura e saber, sobre as quais é desnecessário falar;
– os hospitais, posto que o mundo antigo só conhecia os hospícios;
– o desenvolvimento da agricultura e da pecuária através dos monges que desbravavam florestas,  secavam pântanos, selecionavam vegetais e animais;
– as fábricas modelo tais como aquelas fundadas pelos frades cistercienses para a produção de aço de alta qualidade;
– os relógios mecânicos;
– a imprensa inventada por Gutenberg em1430;
– o método contábil das partidas dobradas, usado até hoje.

Em https://lepanto.com.br/idade-media/o-progresso-tecnico-na-idade-media/ estão listados incontáveis outros progressos civilizatórios que se somaram para melhorar substancialmente a vida. Cabe mencionar:

– as melhorias nos meios de navegação com a invenção do leme e da bússola, das cartas marítimas, do astrolábio e das eclusas;
– as melhorias no aproveitamento da tração animal, com as ferraduras, a carreta de quatro rodas, o estribo;
– o carrinho de mão, as calçadas para pedestres, o alto forno, os moinhos de água e de vento;
– o primeiro poço artesiano (furado em 1126);
– o garfo para refeições.

Segundo Joseph Schumpeter em sua “History of Economic Analysis” foram os escolásticos que chegaram mais perto da economia científica. Jean Buridan deu importantes contribuições à moderna teoria da moeda e Nicolas Oresme, padre fundador da economia monetária, estudou com prioridade os efeitos da inflação. Martín de Azpilcueta escreveu sobre a carestia provocada pelo aumento do meio circulante e o Cardeal Caietano, criador da teoria da expectativa em economia mostrou como a expectativa sobre o valor futuro da moeda afeta o presente do mercado. Jean Olivi demonstrou que o justo preço emerge a interação entre compradores e vendedores no mercado, teoria depois consagrada por São Bernardino de Siena, qualificado como o maior pensador econômico da Idade Média.

Foram notáveis, também, os progressos na engenharia e na arquitetura, primeiramente com o estilo gótico adotado nas magníficas catedrais, e, mais tarde com o barroco.

Em síntese apertada, se pode dizer que todo o desenvolvimento técnico-científico dos últimos séculos proveio do impulso do homem medieval. Embora ele já conhecesse os princípios de mecânica carecia de fontes de energia, salvo a eólica e a hidráulica. Estas fontes surgiram com o aproveitamento do carvão que permitiu a construção das máquinas a vapor (1769), do aproveitamento da eletricidade (1886), e, mas tarde, dos motores a explosão movidos pelo petróleo.

Embora se possa dizer que a Humanidade fez mau uso da ciência e da técnica por intemperança e falta de sabedoria na revolução industrial e suas conseqüências, é indiscutível que o chamado “progresso” nos trouxe inúmeras vantagens. Uma delas ocorreu no campo da higiene com reflexos diretos na saúde.

Entretanto seria empobrecer a Civilização Cristã falar somente das realizações materiais, técnico-científicas e econômicas. Quanto mais se poderia dizer sobre tantas outras coisas como, por exemplo, os Descobrimentos e a gestação de novas nações na América, na Ásia e na Oceania; as artes, como, por exemplo, as pinturas de Fra Angelico, Velasquez, Vermeer; a música com Corelli, Bach, Haendel, Purcell, Mozart; a literatura com Dante Alighieri, La Fontaine, Camões; a escultura com o nosso Aleijadinho, Michelangelo, Ghiberti.

Os frutos da Cidade de Deus concebida por Santo Agostinho foram bem destacados pelo Papa Leão XIII na encíclica Immortale Dei, onde enfatiza que nenhum artifício dos adversários os poderá distorcer ou corromper.[2]

* O autor é advogado.

[1] https://www.bbc.com/portuguese/geral-42485915
[2] https://www.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_01111885_immortale-dei.html

 

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