Sputnik V, a primeira vacina que entrou nas mídias sociais

Publicada em 06/04/2021 às 19:42

*Fabio Claudio Tropea

Ninguém ainda sabe até quando, porém a pandemia nos impôs um estilo de vida difícil, muito insólito, tanto no profissional quanto no emocional. Estamos muito tempo em casa, juntos com nossas famílias, e sobre tudo com nossas telas e telinhas, preparando nossas aulas e trabalhos, recebendo e tentando assimilar uma aluvião de notícias quase sempre deprimentes e até trágicas. Uma situação que um amigo e brilhante colega espanhol (A. Cornella) definiu um dia como uma verdadeira infoxicação. Ou seja, uma intoxicação de informação: horas e horas de entrevistas, reportagens, estatísticas, médias de casos e óbitos, mapas de zonas azul que de um dia para outro viravam perigosamente amarelos e vermelhos. Dentro dessas narrativas dramáticas, a(s) vacina(s) foram adquirindo paulatinamente o papel de salvador, única arma capaz de enfrentar e vencer o inimigo viral.

Epidemiologistas e infectologistas nos explicaram repetidamente como atuam essas armas, porém escutamos muito menos o discurso das vacinas, como elas mesmas se apresentam e anunciam aos “compradores” sua forma de agir no corpo humano e social. Por tradição, essas vozes falam uma linguagem técnica, feita de voluminosos e difíceis relatórios preparados para obter a viabilidade de produção de uma autoridade outro tanto “misteriosa” e austera (a Anvisa). Mas os laboratórios farmacêuticos são também grandes empresas de produção, e como toda grande empresa, têm problemas de comunicação, estão interessados em ter uma boa reputação e facilitar uma comunicação eficaz ao seu público através dos canais mais populares. A primeira vacina e a que melhor parece ter entendido a importância das mídias sociais neste setor é sem lugar a dúvidas a Sputnik V. Provavelmente porque era a mais “misteriosa” e a que mais tinha que se apresentar ao mundo inteiro. Foi a primeira em ter página oficial no Facebook, canal no Youtube e perfil em Twitter e Instagram. O perfil no Twitter dessa vacina foi pensado para ser o mais possível realista, com uma linguagem e uma grafia simples e até aquele característico sinal de visto azul. Ela não se dirige a científicos senão a jornalistas e divulgadores, com um tom gentil, mas firme, disponível ao diálogo, mas autoritário nas respostas. Os mais de 220 mil seguidores podem ler cada dia, em inglês, uma grande quantidade de notícias sobre os países que já aprovaram a vacina russa ou aqueles que estão a ponto de fazê-lo. No Facebook e Instagram, Sputnik dá um grande espaço às imagens e enquetes, procurando o envolvimento de seus muitos seguidores. O que no jargão marqueteiro é chamado de “call to action” (chamado à ação), muitas vezes com recompensas. No concurso “V for Victory”, se convidam os usuários a postar publicamente uma foto com os dedos fazendo um “V” como gesto de vitória e apresentando um amigo com o hashtag #SputnikV4Victory. O prêmio por sorteio é uma viagem na Rússia na pós-pandemia. Uma vacina que te premia além de te salvar é uma ideia realmente imaginativa para aumentar a notoriedade e o incremento de community. No entanto, no Youtube a comunicação do Sputnik V favorece a qualidade mais do que à quantidade. No canal oficial aparecem micro-vídeos, quase todos com menos de dois minutos, focados em esclarecer vários aspectos da vacina: suas características, eficácia e importância. Todo conteúdo é muito cuidado, com uma mensagem clara e reconhecível, acompanhada de dados, pesquisas… e rostos de médicos e famílias sorridentes e satisfeitos.

A estratégia: por um lado, fornecer informações selecionadas e aprovadas; por outro, dar às pessoas esperança de que se libertarão da pandemia e poderão voltar a uma vida normal sem distanciamento social nem máscaras. O “Gamaleya National Center for Microbiology and Epidemiology, centro russo que desenvolveu a vacina, afirmou em várias ocasiões que ele “queria e quer promover a aceitação e o uso da vacina russa em todo o mundo”.

Nos últimos meses, quase todas as outras vacinas existentes no planeta ganharam espaço nas mídias sociais. Cada uma, com o próprio estilo e pessoalidade, mas também respeitando a cultura e a forma de ser do País ao qual se estão dirigindo. Não temos espaço aqui para falar nem sumariamente de cada uma delas. Só queremos concluir citando um exemplo muito significativo de essa dupla intenção comunicativa, a claridade e a empatia. Quando a Sinovac fala para uma audiência chinesa é seria, inclusive austera e severa nos tons e no conteúdo. Mas quando entra no Brasil e faz parceria com a Butantan, não duvida em procurar essa cara simpática que “topa” com o usuário brasileiro, E então não duvida em postar no youtube um remix da canção Bum Bum Tam Tam do cantor Mc Fioti, com a letra modificada, as fotos do diretor e o cantor com a caixa de vacina nas mãos e os funcionários da Farmacêutica Butantan bailando atrás do descolado cantor. Como alguém afirmou um dia, Brazil is different!

* Semiólogo, escritor, palestrante e analista das linguagens da comunicação, graduado em Sociologia e Jornalismo em Urbino (Itália) e doutor em Comunicação na Universidade Autónoma de Barcelona, Espanha. Contato: fabioclaudiotropea@g.mail.com

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