Quando a doença questiona a fé!

Publicada em 24/08/2017 às 09:36

 

Padre Ezequiel Dal Pozzo
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É comum ouvir de pessoas acometidas pela doença e sofrimento essa pergunta: por que isso comigo? Diante da doença levantam questões, que no fundo, desembocam em Deus. Querem compreender a causa de tal sofrimento, uma vez que sempre buscaram viver segundo a fé e agradar a Deus. No fundo, analisam a realidade a partir do princípio de que, quem tem Deus, não deveria adoecer. Esse pressuposto, no entanto, não está correto. Não é verdade que fazendo o bem, amando a Deus, buscando uma vida correta, garante ausência de sofrimento e de doenças. Por que isso comigo? Por que toda essa dor com nossa família? Eu não merecia isso. Essas perguntas e afirmações, partindo de um princípio distorcido, levam a conclusões erradas. Algumas conclusões terminam em distorções na própria imagem de Deus. Fala-se que Deus permite esse mal. Isso pode provocar ateísmo em alguns, pois questionam a onipotência de Deus, que poderia evitar essa doença ou sofrimento e não o fez. Outros, a partir da fé, aceitam a realidade compreendendo que, se Deus permitiu, é porque disso podem retirar uma lição, e esse é um sofrimento redentor.

Pois bem! Decorre disso então que a questão seria a falta de fé? Seria a fé a resposta para todas as perguntas e para essa suposta “permissão” de Deus? Não creio que se pode resolver o problema com uma resposta afirmativa. Certo é que para aquele que tem fé muitas perguntas e situações se acomodam e passam a ser aceitáveis. Porém, não podemos explicar a realidade somente a partir da fé. A compreensão da realidade, a linguagem que utilizamos, deve partir de uma base comum, que responda a todos. O problema deveria se resolver para aquele que crê e para aquele que não crê. A base explicativa deveria ser a mesma, uma vez que o sofrimento atinge a todos, crentes e não crentes.

Diante disso, a compreensão para o problema da doença e do sofrimento deveria partir da própria existência da possibilidade da dor e não relacioná-la, de imediato, com Deus. A doença e o sofrimento podem acontecer a todos nós. Ou melhor, todos em algum momento, somos atingidos pelo sofrimento e pela doença. A possibilidade do sofrimento está enraizada em nossa finitude e nosso limite. Ninguém vivo, absolutamente ninguém, consegue se livrar dessa condição de finitude. E é exatamente isso que deixa sempre aberta a porta de possibilidade para o sofrimento e a doença. E essa dor pode entrar a qualquer hora, quando menos esperamos. O que a desencadeia são causas da própria natureza do ser humano e de sua interação com o ambiente. Não preciso dizer que Deus permite, não só porque isso é inadequado, mas também porque não há entre Deus e o sofrimento, nenhuma relação de causa e consequência. Deus não causou e nem permitiu que acontecesse tal mal. Ou melhor, em nenhum momento e em nenhuma situação ele é causa e permissão do mal.

Quando faço a pergunta “por que isso comigo?” devo, portanto, perceber que a dor entra em nossa vida porque somos criaturas finitas e que, embora estejamos sempre sob a proteção de Deus, a porta do sofrimento também está sempre aberta e ele poderá entrar. Essa entrada não significa que a proteção de Deus deixou de estar conosco e que não estamos mais sustentados pela sua graça. Deus que está sempre lutando contra o mal, mais ainda nessa hora, estará conosco nos ajudando a enfrentar essa dor.

2 Comentários

  1. ROGÉRIO REGIS DE AZEVEDO disse:

    O texto entre aspas do segundo parágrafo é de Alvin Plantiga

  2. ROGÉRIO REGIS DE AZEVEDO disse:

    Quando tentamos explicar a existência do mal no mundo, seja de qualquer natureza, natural, físico ou moral, certamente estamos fazendo, de alguma forma, teodiceia, isto é, uma justificação do aparecimento do mal no mundo.Os ateístas podem perguntar por que o mal existe? “Deus quer impedir o mal, mas é incapaz de fazê-lo? Então é impotente. É capaz, mas não o quer? Então, é malévolo. Quer e é capaz? De onde vem então o mal?” (David Hume).

    Será se a “teodiceia” do Pe. Ezequiel Dal Pozzo é satisfatória, responde porque as pessoas sofrem? “Por que supor que, se Deus tem uma boa razão para permitir o mal, o teísta seria o primeiro a sabê-lo? Talvez Deus tenha uma boa razão, mas esta seja demasiado complicada para que a compreendamos. Ou talvez ele não a tenha revelado por qualquer outra razão. O fato de que o teísta não sabe por que Deus permite o mal é, talvez, um fator interessante sobre o próprio teísta, mas em si pouco ou nada mostra de relevante quanto à racionalidade da crença em Deus”

    Dessa forma, penso eu, que Deus pode ter alguma razão para permitir o mal no mundo, mas dificilmente poderemos saber com alguma razoabilidade. Portanto, o que dizemos – e às vezes apelamos para a questão do livre-arbítrio (ver Santo Agostinho) com a “livre” escolha pelo mal moral, para justificar a opção pelo pecado e, por consequência, do mal em nós – é que somos naturalmente sujeitos ao mal, em face de nossa limitação no mundo, como fez Pe. Pozzo.

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