Máscara: a estética da disciplina

Publicada em 10/05/2021 às 18:31

*Fabio Claudio Tropea

Antes de sair de casa, pegamos a bolsa ou a pasta. As mãos nos bolsos roçam carteiras, celulares, chaves. Procuramos o conforto de ter tudo o que precisamos conosco, mas de repente sentimos a estranha sensação de que algo está faltando. Meu Deus, a máscara! Sim, levá-la virou um automatismo, um reflexo espontâneo das mãos e da mente, mas hesitamos ainda na hora de pensar nela como nossa máscara, ela não conseguiu ainda se integrar ao usuário até o fim, sendo ambiguamente necessária, mas também desagradável.

Há aqueles que levam com elegância a de tecido, a vezes conseguindo integrá-la à estética de suas roupas. Ao contrário daqueles que se orientaram para um bico de tucano, uma versão técnica com sigla misteriosa (PFF2), digna de uma seita secreta. A maioria, no entanto, refugia-se no modelo cirúrgico universal, descartável, mas reutilizada repetidamente. Mas também aqui com diferentes declinações de personalidade. Os prudentes e integrados usam de forma médica e preceptiva, assim que eles atravessam a porta da casa; são os únicos que obedecem a um critério puramente sanitário.

Porém na rua, ou inclusive nas lojas, muitos descobrem o nariz, deixando a boca enfaixada como um refém; muitos a abaixam transformando-a num babador ou colarinho e, em seguida, levantando-a neuroticamente no primeiro olhar sancionador. Os mais descolados as colocam no cotovelo, como uma espécie de brasão, troféu ou amuleto.

Na televisão ou mesmo na nossa cidade, todos vimos já aqueles que as mantêm nos bolsos da calça, no meio de poeira, migalhas ou moedas e, em seguida – se necessário – puxá-las para fora. Incluso é possível até mesmo encontrar algum talento fashion que consegue aprontar no rosto uma espécie de bandana ou curativo, no estilo das novas modas importadas ou aquelas sugeridas pela própria proverbial criatividade brasileira, sempre notável. Do outro lado, está o andar soberbo e descarado dos poucos que ousam andar na cidade sem levá-la. Quando se cruzam os olhares desses dois bandos, ódio ou indignação se levantam contra esses “pouca vergonha, desrespeitosos” ou, vice-versa, esse “gado escravizado, ovelhas da Globo”.

Mas além das diferentes e (quase) todas legítimas opções políticas, no geral a máscara virou indubitavelmente um símbolo fundamental da era pandêmica e com certeza daquela pós-pandêmica, um símbolo de obediência e disciplina diferente aos princípios de liberdade individual reinantes na nossa sociedade moderna. A mídia não criou essa ideia, mas foi difundindo-a com insistência e quotidianamente essa preocupação até transformá-la em pânico.

Além também das regras sanitárias obvias e inevitáveis, o que a pandemia acelerou no cidadão é um conceito de sociedade mediatizada pelas telas luminosas e protetoras dos nossos smartphone e televisão. A máscara não parece ser mais só uma proteção simples e eficaz contra a doença, mas também um sinal de adesão ao império da imagem e da saúde coletiva, que de ideia se está transformando em ideologia. Uma sociedade da harmonização e da pele lisa, do isolamento doméstico, o smartphone e o smartwork.

E uma sociedade global em via de orientalização, frente a uma crise das economias e dos valores tradicionais do Ocidente. Muito diferente do passado recente, quando espantados, incomodados ou surpreendidos observávamos grupos de turistas asiáticos velados por máscaras e com um distanciamento social automático. A globalização está empurrando o mundo para caminhos inesperados. Exemplos? O último Oscar foi para uma diretora chinesa; Tik tok é
um aplicativo indonésio de grande sucesso entre os adolescentes no mundo inteiro e Seul, na Coreia do sul, é uma nova capital cultural e econômica do planeta.

* Semiólogo, escritor, palestrante e analista das linguagens da comunicação, graduado em Sociologia e Jornalismo em Urbino (Itália) e doutor em Comunicação na Universidade Autónoma de Barcelona, Espanha. Contato: fabioclaudiotropea@g.mail.com

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