Está o futuro das cidades nos arranha-chãos?

Publicada em 22/10/2019 às 09:30

* Fabio Claudio Tropea

Em “As cidades invisíveis”, do escritor Ítalo Calvino, o famoso viajante Marco Polo descreve para Kublai Khan as incontáveis e fantasiosas cidades do imenso império do conquistador mongol. As cidades descritas pela fantasia do autor se desenvolvem em todas as direções, articulando formas e volumes surpreendentes, de maneira planejada ou absolutamente casual e caótica.

Neste livro fantástico pensava eu hoje, enquanto descia as infinitas escadas mecânicas para chegar até a plataforma de um trem metropolitano de Barcelona. Achei uma verdadeira aldeia subterrânea, obtida por perfurações com gigantescas máquinas chamadas mandriladoras, e feitas para favorecer o movimento dos cidadãos numa cidade que na superfície já não tem espaço para mais vias de transporte. No mundo inteiro, bilhões de habitantes urbanos começaram faz tempo a encher os espaços por em cima e por baixo da superfície.

América, o novo mundo, foi o laboratório arquitetônico onde explodiu essa operação de beliscamento do ceu, sobre tudo por falta de espaço horizontal. Nova York, por exemplo, se verticalizou muito mais do que Los Angeles, porque lá os espaços horizontais eram maiores e a cidade pude se expandir no imenso deserto interior. Na Europa, no entanto, se continuou modificando o aspecto superficial das cidades, passando de uma estética clássica a uma barroca, e depois, modernista, liberty, art nouveau, etc. Abaixo, foram criados os intestinos obscuros e misteriosos do organismo urbano, imensas redes de esgotos que eram como novas catacumbas. Em Barcelona (e em muitas outras cidades da Europa) existe a possibilidade de fazer uma visita turística nos gigantescos esgotos subterrâneos.
Mais recente é a ideia de ocupar estável e produtivamente os espaços do subsolo. Montreal, no Canada, começou no 1962 a construir o complexo subterrâneo maior do mundo. Uma rede de 30 kms de tuneis, prédios, praças e ruas. Os serviços acessíveis incluem bancos, hotéis, centros comerciais, faculdades, residências de luxo, bem como estações de metro e ferrovias. Mais de 500.000 pessoas as usam todos os dias, principalmente durante o frio inverno.

Muitas cidades têm hoje verdadeiros “Underground City Plans”, o seja planos para desenvolver o território urbano por debaixo do chão. No extremo oriente, uma região de alta demografia, abundam esses fenômenos. Muitas das principais cidades do Japão têm as chamadas Chikagai (cidades subterrâneas), inicialmente criadas para conectar diferentes linhas de transporte, e agora autênticas cidades com centenas de restaurantes, lojas e todos os tipos de serviços. No centro histórico de México DF, há limitações construtivas rigorosas. Um vanguardista estudo de arquitetura (BNKR) reagiu construindo uma enorme pirâmide invertida com 300 metros de profundidade, chamada simbolicamente de “rascasuelos” (arranha-chão).

Agora bem, um dos principais problemas comuns em todos esses espaços urbanos é que a mente humana está naturalmente predisposta a temer os espaços subterrâneos, por associa-los com ambientes obscuros, pequenos, cavernosos, evocadores do atávico perigo de ser enterrado vivo”. Por isso, os espaços urbanos desse tipo são todos amplos e sobre tudo diáfanos, isto é abertos e muito luminosos.

Barreiras, evidentemente, está ainda numa fase inicial desse processo mundial, apenas começou a se verticalizar com a construção de arranha-céus. Mas é um bom exercício de imaginação pensar como vai ser esta cidade dentro de poucas décadas. Este poderia ser o tema de um próximo artigo, se alguém quiser participar nesse jogo de imaginação esta convidado a mandar-me a sua visão da Barreiras do futuro.

* Semiólogo, escritor, palestrante e analista das linguagens da comunicação, graduado em Sociologia e Jornalismo em Urbino (Itália) e doutor em Comunicação na Universidade Autónoma de Barcelona, Espanha. Contato: fabioclaudiotropea@g.mail.com

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