As pandemias ameaçam também essa fruta querida! (2ª parte)

Publicada em 24/08/2020 às 09:30

*Fabio Claudio Tropea

Na primeira parte desse artigo (publicado no numero anterior) explicamos que nos anos 50, no setor das bananas, teve uma doença causada por um fungo, que teve consequências devastadoras, porque atingiu a grande maioria das bananas cultivadas e comercializadas no mundo, que eram de uma só variedade, a Gros Michel ou ‘Big Mike’. Essa espécie havia sido escolhida para cultivo porque seus frutos grandes e saborosos podiam ser cortados da árvore ainda verdes, possibilitando o transporte por longas distâncias, enquanto continuavam amadurecendo. Mas tinha um problema de natureza genética. Cada bananeira é geneticamente quase idêntica as outras, produz frutas consistente, sem nenhuma diferencia a uma das outras. Do ponto de vista comercial é excelente, mas do ponto de vista epidemiológico a diversidade genética limitada de uma só variedade, tornou-as suscetíveis a doenças. Começou a busca por uma variedade para substituir a Gros Michel, que poderia ser resistente ao mal-do-Panamá. Na década de 1960 a Cavendish, uma espécie chamada no Brasil de banana nanica, mostrou sinais de resistência que poderiam salvar a indústria da banana, embora tivesse um sabor mais suave e uma textura menos aveludada da Gros Michel.

Em poucas décadas, ela tornou-se a nova referência para a indústria da banana e continua sendo-o até hoje. Mas os cientistas que observavam com nervosismo as vastas plantações em expansão sabiam que era apenas uma questão de tempo até que houvesse outro surto. Na década de 1990 uma nova cepa do mal-do-Panamá, conhecida como TR4, surgiu, novamente na Ásia e outra vez letal para as bananas. A economia globalizada em que pesquisadores, agricultores e outros visitantes das plantações de banana circulam livremente pelo mundo, fez espalhar a doença ainda mais rapidamente, numa verdadeira “pandemia”. Pesquisei um pouco no assunto, e descobri que a razão pela qual o TR4 é tão mortal é porque, assim como a covid-19, ela se espalha por “transmissão furtiva”. O que significa que uma planta doente fica saudável por até um ano antes de mostrar os sintomas da doença: manchas amarelas e folhas murchas. Em outras palavras, quando a TR4 é identificada, já é tarde demais e ela terá se espalhado. Em 2019, o pesadelo asiático se tornou realidade. Começada na Ásia, a doença penetrou na América Latina e no Caribe. Como não há cura, tudo o que pode ser feito é colocar as fazendas infectadas em quarentena e aplicar medidas de biossegurança, como desinfetar botas e impedir o movimento de plantas entre fazendas. Em outras palavras, fazer o equivalente a lavar as mãos e manter o distanciamento social. Paralelamente, a corrida para encontrar uma solução está a pleno vapor. Na Austrália, cientistas desenvolveram uma banana Cavendish geneticamente modificada que é resistente ao TR4. A fundação Bill e Melinda Gates também está financiando pesquisas na área.

No entanto, apesar das fortes evidências científicas de que os alimentos geneticamente modificados são seguros, é improvável que a banana esteja na prateleira de um supermercado perto de você enquanto os órgãos reguladores e o público permanecerem desconfiados.

Para García-Bastidas, colombiano, um dos maiores expertos de bananas no mundo a banana transgênica é uma “solução fácil” que pode resolver o dilema da indústria por cinco a dez anos, mas não solucioná-lo por completo. Ao fim e ao cabo, diz ele, o maior obstáculo é ter uma indústria inteira baseada em uma única variedade clonada de outras plantas. Uma solução, na opinião de muitas associações ativas no setor das bananas, seria introduzir mais diversidade na cultura da banana, para que ela seja mais resistente a surtos de doenças como o TR4. Realmente, existem centenas de bananas com potencial para cultivo em todo o mundo. Por que não usá-las? Já em países como Índia, Indonésia e Filipinas, as pessoas comem dezenas de variedades diferentes de bananas, com sabores, cheiros e tamanhos diferentes. Mas elas são difíceis de cultivar e exportar na escala da Cavendish, que foi criada para suportar o transporte através dos oceanos. A produção local não se presta muito a comercialização globalizada da atualidade, porem seria lindo poder ter na mesa uma banana vermelha (musa paradisíaca) ou uma cor de rosa (musa veluntina). As duas variedades são de origem filipina, mas a final de contas o café também era da Arábia e olha que bem se dai nas nossas terras!

* Semiólogo, escritor, palestrante e analista das linguagens da comunicação, graduado em Sociologia e Jornalismo em Urbino (Itália) e doutor em Comunicação na Universidade Autónoma de Barcelona, Espanha. Contato: fabioclaudiotropea@g.mail.com

As pandemias ameaçam também essa fruta querida! (1ª parte)

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