Alguém escreve ao Coronel?

Publicada em 28/01/2019 às 10:24

* Fabio Claudio Tropea

Hoje, enquanto preparava uma palestra para a próxima semana, em um livro meio escondido nas estantes altas da minha livraria, achei uma carta que os meus pais me mandaram há 40 anos (sic!) para me parabenizar os bons resultados do primeiro curso universitário passado longe da família. Uma carta de seis páginas, cheia de tudo: impressões, crônicas, pensamentos, conselhos, preocupações, até receitas de cozinha, escrita a mão pela minha mãe, com aquela grafia clara e limpa típica dos professores de antanho (a grafia do meu pai era péssima, pior do que a minha, seu meio de expressão e comunicação era a Olivetti Lexikon 80). Chorei, confesso, como se chora quando o passado reemerge de repente, e logo pensei: Quem escreve cartas hoje? Na era da Skype, Whatsapp e Facebook, ainda existe alguém que toma o tempo para escrever, palavra após palavra, uma mensagem que vai além da curtida, o emoticón ou a frase curta do passarinho azul?

Hoje, as cartas já não existem, pelo menos não com o mesmo valor afetivo que tinham antes. Uma carta era uma aventura necessária, complexa e demorada, a única maneira de se comunicar à distância. Não se sabia com precisão quando chegaria uma resposta, tinha-se que calcular o valor do selos baseado em peso e distância, as cartas se acavalavam, chegando sem ordem nem regularidade. Outro universo comparado com a arrogante pretensão de resposta imediata que se pede ao destinatário quando se envia uma mensagem eletrônica. Evidentemente, as cartas não foram simplesmente uma transferência complexa de informação pura, durante séculos foram teatro e atores das paixões humanas, e além de tudo uma forma de arte (chamava-se gênero epistolar).

As cartas dos grandes escritores e artistas da humanidade têm uma intensidade e uma energia formidável. Eis uma pequena dica, fácil de cumprir, para o recém estreado ano novo. Lendo algumas cartas famosas podemos aprender muito sobre o hoje. Esse mundo lento das cartas pode nos ensinar coisas importantes, que no nosso frenesi acelerado já quase esquecemos.

Porque quando um autor escreve um romance, um conto ou um ensaio, ele sempre pensa em um vasto número de leitores potenciais, e isso disciplina muito o seu trabalho. Porém a carta é uma escrita dirigida a um único leitor. Escrever para uma pessoa condensa a linguagem, faz as palavras mais livres, menos controladas e por isso muito mais espontâneas e vividas.

O pintor Vincent Van Gogh escreveu para o irmão mais de 800 missivas, narrando lhe sua vida, seu amor pela pintura e a arte, mas também as inseguranças, os demônios da nossa mente e nossa alma. Aquela escrita era uma maneira de narrar e ao mesmo tempo de se desabafar e conhecer, de se pôr na frente do espelho e saber o que tudo o mundo vê em você O leitor pode achar algumas dessas magnificas cartas no seguinte livro: Últimas Cartas ao Meu Irmão Théo, Padrões Culturais, 2009.

Eu ainda escrevo cartas para amigos, colegas e familiares distantes. Não evidentemente para obviar a insubstituível função da atual mídia social, rápida e eficaz como só ela. Mas para umas caraterísticas únicas de esse velho e sedutor dispositivo de comunicação, que vou resumir no seguinte pequeno decálogo emocional-estético de porquê voltar a utilizar essa engenhoca:

1 – Os neurolinguistas dizem que escrever cartas manuscritas favorece o desenvolvimento cognitivo e emocional.
2 – As cartas são para sempre. As e-mails & Cia se podem perder com suma facilidade.
3 – Dica para as crianças: Papai Noel não tem um endereço e-mail certo.
4 – Receber uma carta ou um cartão postal hoje provoca surpresa e emoção.
5 – Poucas coisas são tão fascinantes como um selo estrangeiro.
6 – Tornar eficaz a sua carta precisa uma boa pesquisa para: o envelope, a caneta e inclusive o papel com o qual escrevê-la. O seu destinatário notará esses detalhes.
7 – Uma carta que você escreveu, pela grande quantidade de tempo e emoção investidos, vira inesquecível.
8 – Sempre vai lembrar uma carta que recebeu, sobretudo uma de amor ou despedida. Triste declarar coisas tão importantes no whatsapp.
9 – Em uma carta existe um contato físico indireto muito romântico. Tanto o destinatário quanto quem escreveu mantiveram nas mãos a mesma folha de papel.
10 – E depois de uns anos, você vai ter a oportunidade de relê-las com uma dose de sossego e duas de saudade.
Tenho uma caixa de sapatos cheia de velhas cartas, é um tesouro que estou prorrogando para quando anseie um balanço das coisas que quiseram me dizer as pessoas que amei e (espero) me amaram.

* Semiólogo, escritor, palestrante e analista das linguagens da comunicaçao, graduado em Sociologia e Jornalismo em Urbino (Itália) e doutor em Comunicaçao na Universidade Autónoma de Barcelona, Espanha. Contato: fabioclaudiotropea@g.mail.com

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