Redução da oferta chinesa de pesticidas agrícolas põe em rico agro brasileiro, alerta CCAB Agro

Publicada em 11/07/2019 às 07:29

Por Catarina Guedes

Os diferenciais competitivos, ou “fortalezas” do agro brasileiro, o cooperativismo agrícola e as mudanças demandadas pelos consumidores finais foram a tônica da apresentação da CCAB Agro no China Pesticide Exporting Workshop 2019 (CEPEW). O evento, realizado entre os dias 4 e 5 de julho, reuniu representantes da indústria e comércio mundial de pesticidas, além de membros dos governos chinês e indiano, e de profissionais ligados à segurança e saúde, na cidade de Hanghzou, na China. O evento se deu em um momento em as novas políticas ambientais implantadas pela China, com fechamento de fábricas e reorganização espacial das restantes, levantam incertezas sobre o fornecimento de um dos mais importantes insumos da agricultura tropical, os pesticidas. A meta chinesa é reduzir em 30% o número de indústrias, já em 2020, como parte do 13º Plano para o Desenvolvimento Social e Econômico da República Popular da China.

Em 2018, 30% dos pesticidas agrícolas importados pelo Brasil vieram da diretamente da China. “Porém, há um outro percentual que chega indiretamente, pois os chineses são grandes fornecedores de matérias-primas para outros países também. Essa nova realidade nos afeta e muito. Não temos como, na conjuntura atual, garantir o fornecimento de alimentos para o mundo, sem os insumos chineses. Hoje dependemos desses químicos importados de lá, para produzir, e, em contrapartida, somos grandes fornecedores de alimentos, sobretudo, proteínas, para a China. É uma relação simbiótica ”, explica o CEO da CCAB Agro, Jones Yasuda.

Missão – Durante o evento, que contou com a presença do ICAMA (The Institute for the Control of Agrochemicals, Ministry of Agriculture), Jones Yasuda abordou o crescimento de oferta mundial de produtos de origem desconhecida. “Juntos, os governos deveriam trabalhar fortemente para extinguir essas fontes obscuras, pelo risco que representam tanto para a saúde humana, quanto para a natureza e para economia, uma vez que a eficácia deles é incerta. Os agricultores brasileiros exigem qualidade e respeito às legislações de cada país, para garantir uma concorrência justa e a produção de alimentos com qualidade”, alertou Yasuda. Na ocasião, a CCAB fez um convite para uma visita da missão do ICAMA ao Brasil. “Eles já confirmaram a presença, para setembro próximo. O objetivo é reunirem-se com as autoridades brasileiras e as associações de produtores para discutir esse tema”, anuncia Jones Yasuda.

Segundo Yasuda, no Brasil, a produção de alimentos em escala depende dos químicos agrícolas, pois “as mesmas condições naturais que garantem o crescimento rápido das plantas e a produção em profusão, também favorecem o desenvolvimento de pragas e doenças. Ao contrário dos países do Hemisfério Norte, aqui não temos estações de neve para quebrar o ciclo dos inimigos da lavoura. Produzimos o ano inteiro e dependemos de pesticidas para isso. Eles são para a agricultura o que os remédios são para a saúde humana”, compara o CEO da CCAB.

Receituário – Ainda num comparativo entre pesticidas e remédios, Jones Yasuda diz que, assim como os antibióticos requerem prescrição médica e uso controlado e pontual, para garantir o efeito e evitar tolerância das bactérias aos seus princípios ativos, os químicos agrícolas também dependem de receituário e de alternância de substâncias. “Com as mudanças no parque químico chinês, teremos claramente uma redução da oferta, e ainda um problema adicional: muitas fábricas estão sendo relocadas, e, para efeito do processo de registros no Brasil, ainda que elas continuem produzindo exatamente os mesmos produtos, será preciso entrar com novo pedido. Isso, aqui, pode levar de seis a oito anos”, pondera.

Custos mais altos – Um dos itens de maior peso na planilha de custos do produtor, os pesticidas devem ficar ainda mais caros pela diminuição na oferta, somada aos impactos da guerra comercial que vem sendo travada entre China e Estados Unidos. Desde 24 de setembro de 2018, os Estados Unidos começaram a cobrar uma tarifa de 10% sobre determinados agroquímicos chineses, para reduzir o desiquilíbrio da balança comercial entres os dois países em US$ 200 bilhões. “Com isso, felizes estão os japoneses, europeus, as empresas americanas – lógico – e, principalmente, os indianos. Estes, têm custos maiores que os chineses. Agora, estão temporariamente equilibrados, pois os produtos chineses estão, no mínimo, 25% mais caros para os agricultores americanos, devido à barreira tarifaria”, relata Yasuda, e conclui: “se eu tivesse de apostar, diria que os preços vão subir. E preços de insumos mais altos significam comida mais cara. Esse é, em última instância, um problema de segurança alimentar mundial”.

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