Queermuseu: até onde vai nossa liberdade de expressão?

Publicada em 14/09/2017 às 12:01

 

Padre Ezequiel Dal Pozzo
www.padreezequiel.com.br

Há pouco foi fechada em Porto Alegre uma exposição de mais de duzentas obras de arte, de mais de oitenta artistas, que havia começado no dia 15 de agosto, promovida pelo Banco Santander Cultural, com benefícios da Lei Rouanet. A exposição foi encerrada devido a uma enxurrada de protestos e reações pela internet. A repercussão foi mundial através dos meios de comunicação.

Algumas obras faziam alusão à pedofilia com frases em crianças como: “criança viada, deusa das águas”; outra criança com arco-íris cobrindo o rosto, símbolo da diversidade sexual, e a palavra love ou amo, em inglês; outras ainda sugeriam a zoofilia ou sexo com animais e ainda partículas usadas na consagração da missa, com nomes de órgãos sexuais. Quem protestou não gostou do que viu e quem expôs não gostou da reação de quem protestou. Quem estará com a razão?

Fala-se em liberdade de expressão. Ainda, se defende que a arte transgride o senso comum para suscitar reflexão. A repercussão criou o debate. Se ele vai buscar razões profundas para compreender essa questão, isso não se sabe.
Eu também gostaria de fazer algumas perguntas: primeiro gostaria de saber do autor da exposição o que ele pretende dizer ao escrever vagina e língua num plástico que continha dentro partículas de missa? Que debate ele quer suscitar? Será que isso é respeitoso com a religião católica ou mesmo cristã que faz da ceia ou da comunhão o seu momento mais sagrado? Ou quem fez isso não sabia que para nós, cristãos, isso é sagrado? Até onde a arte pode transgredir para provocar a reflexão? Pode ser desrespeitosa com valores do outro? Ou talvez o autor da exposição tenha tido em sua intenção o máximo de respeito com esse símbolo religioso e todos os que viram interpretaram errado? Estariam esses visitadores enganados?

Quanto à pedofilia: se eu coloco um arco íris escondendo o rosto de uma criança, colocando na boca da criança a palavra amo, estou eu respeitando a criança ou estou dizendo algo por ela, antes que ela mesma tenha consciência disso? Será isso respeito à diversidade ou incentivo e promoção da diversidade? Respeitar e acolher a diversidade, atitude fundamental e necessária em nosso tempo, não é o mesmo de promover. A diversidade não precisa de marketing ou promoção. A diversidade existe, está aí. Ou alguns consideram que ela precisa de propaganda? Não bastaria termos atitudes de acolhida e respeito humano com a diversidade? Quem expôs essas pinturas de crianças pensou em criar mais acolhida ou promover a diversidade?

Se a arte é livre, mas uma grande parcela da sociedade a considera desrespeitosa e ofensiva, esses têm o direito de livremente considerá-la ofensiva ou desrespeitosa? Ainda, em nome da liberdade de expressão, se pode ir até onde ou o que me é permitido dizer? Aqueles que interpretaram que algumas imagens promoviam a possibilidade do sexo com animais, teriam se enganado? Mas, o que mesmo o autor quis dizer? Gostaria ele de promover a discussão para vermos o quanto descente é fazer sexo com animais? Ou quis dizer que o sexo com animais é algo perverso? Se quis dizer que é perverso, porque sua arte não deixou isso mais claro? E se quis promover a discussão sobre a possibilidade de zoofilia, será esse um tema discutível ou estará indicando uma perversão do humano e o fim dos limites da próprio pensamento? Será decente pensar nisso ou algumas coisas não são passíveis de discussão?

Vejam, que essa polêmica dá o que pensar. Muitas outras perguntas seriam possíveis. Certamente quem expôs teria outras perguntas a fazer à sociedade que protestou. O fato é que a discussão deveria levar o pensamento a perceber o que nos torna mais humanos, respeitosos da diversidade, livres e ao mesmo tempo responsáveis com a diversidade e com o futuro. Vítor Franklin, um grande psicólogo do sentido da vida, disse um dia: ao lado da Estátua da Liberdade construída nos Estados Unidos se devia construir a Estátua da Responsabilidade. Uma sem a outra não dá certo.

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