O Transmontano analfabeto

Publicada em 11/10/2017 às 10:14

 

Por Humberto Pinho da Silva – Porto/Portugal

Casal amigo, recentemente vindo do Brasil, que anda a viajar pela velha Europa, ao passar pela minha cidade, quis visitar-me, e convidou-me para encontro num hotel do centro da cidade.

Conversamos sobre a situação política no Brasil e da América Latina, mormente da Venezuela; e a determinado momento, a conversa descambou para o facto de todos quererem ser europeus.

Foi então que narraram a curiosa história, do transmontano, que certo dia, abandonando sua aldeia, partiu para o Rio de Janeiro. Levava consigo a esperança de vir enriquecer, nesse imenso Brasil, onde se contava, que havia a árvore da pataca: bastava abanar… e o dinheiro chovia…

Desembarcado em terras de Vera Cruz, logo verificou, que para sobreviver, teria que trabalhar duramente; e a famosa “árvore” só existia na imaginação de “poetas” excêntricos.

Empregou-se num empório. O dono da casa era rude e pouco amável para os gringos, mormente portugueses.

De tanto se ver desprezado, transformado em palhaço pobre de circo pobre, pelo facto de ser português, resolveu, quando conseguiu disfarçar a pronúncia, esconder a nacionalidade.

Se sofria com a chacota que faziam aos patrícios?

Lá isso sofria… Debochavam, que vinham: “de pau e saco às costas”; mais tarde, com o aparecimento da TAP, de “Tamancos Aéreos Portugueses” e outros chispes, que a rádio, e mais tarde a TV, lançavam para gáudio de muitos. Mas sofria calado…por medo e vergonha.

Casou. Teve filhos e filhas. A vida melhorou. Comprou casinha… e ele, sempre ruído pela saudade da sua terra, ia-se conformando, não só com a nacionalidade, mas com a indiferença e desprezo dos filhos.

Prosperados com o trabalho paterno, frequentaram o Ensino Superior; se não tinham vergonha, evitavam, acintosamente, a companhia do pai. Homem inculto, que mal sabia ler, e ainda menos escrever, que trajava modestamente, e trabalhava como galego.

Mais tarde, os netos e bisnetos, nem o iam visitar – diziam que os afazeres não lhes permitia, – “Para quê?!”: Era velho, pobre, rude, analfabeto… E agradeciam ao pai, não os ter batizado com apelido português. Hoje podiam usar nomes com “Ys”, “Ws”, e letras dobradas. Era chique e dava status.

Um dia, o transmontano, morreu. Foi sepultado em vala comum, quase como indigente, em caixão modestíssimo, e sem acompanhantes.

A família não queria que se soubesse que o antepassado fora daqueles que desembarcaram de: “trouxa de roupa e cajado, que lhe servia de bengala…”

Passou o tempo… Passaram décadas… Portugal aderiu à U.E.; mais tarde ao euro. Agora dizem: “Estão ricos!!!…”

Os netos e bisnetos, do velho e pobre transmontano, lembraram-se, então, dele, e pensaram: “ – Agora podemos lucrar pelo facto de sermos descendente, desse antepassado!…”

– “Mas como?!…”

– “Nem conhecemos donde era! …Trás-os-Montes é grande!…”

Então, rebuscaram velhos e revelhos documentos. Escreveram a padres e Juntas de Freguesia. Buscaram amigos e parentes; e até um neto percorreu o distrito de Bragança, com foto do agora “querido” avozinho, e palavras sentimentais…, na esperança que alguém fornecesse alguma dica.

Já não dizem: que andara de “Tamancos Aéreos”; e invejam, até, os que já obtiveram o almejado cartão, que lhes permite serem cidadãos europeus; crentes que não lhes vai acarretar problemas, dissabores e despesas futuras.

Se o velho transmontano, no outro mundo, poder conhecer o que se passa neste, há-de rir-se, em grande risota, com outros gringos analfabetos, que envergonhavam a família, por serem: italianos, portugueses… europeus analfabetos…

Assim rematou aquele casal, que sempre se orgulhou das suas origens, e sempre frequentou e procurou o convívio de patrícios, em associações e clubes, indiferentes à chacota e ao ridículo, que muitos (netos e bisnetos de portugueses e italianos,) lançavam sobre aqueles que se orgulhavam dos avós: Homens honrados, humildes e trabalhadores exemplares.

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