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Texto Ronaldo Ausone Lupinacci* | ronaldo.lupinacci@terra.com.br
Irrompeu, no mundo ocidental, acirrado debate a partir da divulgação de numerosos e escabrosos fatos relacionados à prática da pedofilia por parte de eclesiásticos católicos, principalmente na Irlanda, Alemanha, Áustria, Holanda, Espanha, Itália, Suiça e Estados Unidos.
Aos católicos cabe repudiar veementemente tais comportamentos, e, sobretudo, tomar posição definida porque os escândalos mancharam a reputação da Igreja, e, parecem estar causando um agravamento da crise de credibilidade, que pode se transformar em crise de fé, do que já existem sinais na Áustria e na Irlanda.
Acrescem-se ao conturbado panorama, as manifestações de católicos rebeldes à disciplina eclesiástica que, a respeito dos tristes episódios, extraem conclusões erradas sobre o celibato. E, a tudo isso se soma o oportunismo de não católicos, que se aproveitam do ocorrido para atirar pedras e lama na Igreja (por exemplo, http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u711346.shtml).
A tomada de posição pressupõe um penetrante aprofundamento na análise dos fatos. Para dissipar o nevoeiro de acusações e de confusão é indispensável trazer à tona alguns elementos da Doutrina Católica e da História, com o intuito de explicar uma aparente contradição. Com efeito, sendo bastante austera a Moral Cristã, como entender a eclosão recente e, em série, de atos dos mais repugnantes perpetrados por aqueles que deveriam ser os mestres e os exemplos da mais ilibada pureza de costumes? E, como qualificar a atitude de autoridades religiosas, que cientes das torpezas, se abstiveram da adoção de medidas punitivas e saneadoras, e, procuraram abafar os escândalos?
A pedofilia se situa do terreno da parafilia, grupo de distúrbios do comportamento sexual. A matéria sexual, na Moral Cristã constitui objeto do 6.º e do 9.º mandamentos da Lei de Deus transmitida a Moisés. Para sintetizar muito, se pode dizer que é proibido pelo Decálogo qualquer ato sexual contrário à sua finalidade, qual seja a da procriação. Desde o Antigo Testamento até hoje, o comportamento sexual pervertido tem sido alvo das mais severas censuras, como se pode ler nos Livros Sagrados, nos documentos do Magistério da Igreja, nos escritos dos Santos.
Especificamente sobre a pedofilia, no entanto, os textos são raros. Há uma condenação implícita de tal prática, dentre outras atentatórias à inocência, nas palavras duríssimas do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, quando disse que seria melhor à condenação à morte do que indução das crianças ao pecado (São Mateus, 18,6). Pode-se encontrar referência explícita àquilo hoje designado por pedofilia no Concílio de Elvira (305-306 d.C.), que excluiu da comunhão, mesmo em caso de morte, os estupradores de crianças. Mais ou menos naquela mesma época (século IV, d.C.), São Basílio prescreveu a aplicação de chicotadas, prisão com correntes e outras penas infamantes aos molestadores de jovens.
Em contrapartida, os textos sobre o homossexualismo são abundantes, permitindo inferir que - na repulsa a tal vício - se incluía, também, a pedofilia, embora esta, agravada pela crueldade e pela covardia, nem sempre evidencie o comportamento homossexual, já que pode refletir, também, a atividade heterossexual.
Embora sejam numerosos, os textos condenatórios do homossexualismo se acham bastante espaçados no tempo, permitindo concluir que a Igreja se ocupou do assunto apenas nas épocas em que o mal tomou maior dimensão. Assim, por exemplo, durante a Contra-Reforma (século XVI), quando o Papa, São Pio V, impôs penas pesadas aos homossexuais, facultando inclusive a condenação à morte, a ser aplicada pelo poder civil. Deste conjunto de dados é possível supor que a pedofilia, existente na decadência do Império Romano (marcada por costumes dos mais reprováveis), foi se tornando cada vez mais rara nos últimos 1.500 anos, o que é perfeitamente compreensível na medida em que a Igreja pouco a pouco educou e formou os povos ocidentais segundo os princípios da Moral Cristã.
As denúncias que agora vieram a público correspondem a acontecimentos verificados no período histórico que medeia de 1950 até hoje, e, mais intensamente a partir de 1960. Devemos, assim, concentrar a atenção no que ocorreu de lá para cá a fim de identificar a causa mais eficiente no desencadeamento da tragédia moral.
Ora, no aludido período, muito embora não tivesse mudado a sua doutrina – como jamais poderia, e jamais poderá mudar – a Igreja foi invadida pelas toxinas da amoralidade contemporânea. A abertura para o mundo, que se pregou mais nitidamente desde o final dos anos 30 do século passado em meios católicos, e que se instalou oficialmente com o Concílio Vaticano II, gerou profunda modificação nas posturas e nas práticas de eclesiásticos e leigos, vale dizer em crescente relaxamento moral, em matéria sexual, inclusive. E, tal atmosfera penetrou nos seminários, destinados à formação dos sacerdotes, como em geral em todos os ambientes católicos, com destaque para as escolas.
No estudo mais completo publicado até agora sobre o Concílio Vaticano II, Átila Sinke Guimarães, ao tratar da tara da pedofilia afirma ser “conseqüência clara do liberalismo nos costumes que se instalou no Clero em grande parte devido às reformas conciliares” (“Nas Águas Turvas do Vaticano II”, p. 407, 1.º volume da coleção “Eli Eli Lamma Sabacthani”). Este mesmo autor escreveu obra específica sobre o assunto intitulada “Vatican II, Homossexuality & Pedophilia”.
Sem mencionar o Concílio Vaticano II, frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, na presença do Papa Bento XVI, no último dia 26.03.10 atribuiu à “tepidez de uma parte do clero, a falta de zelo, e a inércia apostólica”, a crise da Igreja, ainda mais que os escândalos de alguns sacerdotes. É simples inferir que tudo isso decorreu tanto do abandono da doutrina tradicional e perene, como do comportamento a ela inerente, fomentado na era pós-conciliar.
Afirmo, assim, que o abjeto cenário em que se insere a pedofilia teve origem nas tendências e nas idéias que a seita modernista-progressista inoculou nos ambientes católicos nos últimos 70 anos. A mesma seita que, manipulando o Concílio Vaticano II, engendrou o chamado “esquerdismo-católico”, impulsionador das invasões de terras, do “apartheid” coletivista dos índios, da colaboração estável com revolucionários e até terroristas (caso Marighella), da indulgência com tiranos, tais como os dirigentes soviéticos, chineses e cubanos, e, tantas outras coisas mais.
A temática foi resumida ao extremo, mas poderá ser ampliada, se necessário.
* O autor é advogado e agropecuarista.
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