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Ronaldo Ausone Lupinacci*
No dia 24 de julho do ano de 1955 realizou-se o “Ato de Consagração Cívica Nacional do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus”, durante encerramento do Congresso Eucarístico Internacional, que contou com a maciça participação de centenas de autoridades civis, dentre as quais senadores, deputados, e ministros dos tribunais superiores(1). O evento exprimia a pujança da Igreja Católica Apostólica Romana, tanto mais se a ele adicionarmos que, em torno de 95% dos brasileiros, se declaravam católicos.
Passado pouco mais de meio século, os dados Censo 2010 divulgados pelo IBGE no mês de junho deste ano de 2012, apontaram para uma participação católica de 64,6% da população nacional, o que, em números aproximados, significa uma perda da ordem de 30% em relação a 1955, isto é, praticamente um terço do contingente populacional. Evidenciam tais informações estatísticas uma erosão apocalíptica, ainda mais grave se a ela acrescentarmos que, dentre os católicos, não mais do que 5% são “praticantes”, qualificativo de si mesmo inadequado, atribuído àqueles que se limitam unicamente a ir à missa ou fazer contribuições financeiras.
A mídia, sem conseguir esconder o regozijo com que recebeu os dados do IBGE, limitou-se a análises superficiais, em geral de conteúdo meramente sociológico, tais como a de explicar as modificações do panorama religioso pelas migrações internas; pela urbanização; nível de renda; idade e sexo dos aderentes aos diversos credos, ou, hostilizar veladamente a Igreja a respeito da inflexibilidade das normas morais relativas ao divórcio, ao aborto e à contracepção. Dado o forte componente anticatólico atuante nos meios de comunicação social, se pode inferir de tal diagnóstico o intuito de desviar a atenção da opinião pública das causas reais da crise religiosa. Surge, daí, um motivo a mais para esquadrinhar o assunto objeto do Censo do IBGE.
Antes de investigar as causas da descomunal apostasia contemporânea, importa fixar uma diretriz de raciocínio estabelecida pela própria Igreja. No auge das convulsões da revolta protestante ocorrida no século XVI, através da extensa Instrução de 3 de janeiro de 1523, o Papa Adriano VI atribuiu a responsabilidade da catástrofe – que veio a afastar, praticamente, nações inteiras da religião católica – aos sacerdotes de diferentes graus hierárquicos, “desde o Papa até os Prelados” (Bispos), observando: “Nós todos, Prelados e Eclesiásticos, nos afastamos do caminho reto, e já há muito não há um que pratique o bem.” O Papa Pio IX, três séculos depois, na Encíclica Qui Pluribus (1846) reafirmou a mesma verdade, à qual deve ser reconhecida como lei histórica: “(...) é a ignorância dos Pastores, ou à negligência dos deveres de seu cargo que se deve atribuir perpetuamente o relaxamento dos costumes entre os fiéis, a violação da disciplina cristã, o abandono e a destruição das práticas e do culto religioso, enfim o extravasamento de todos os vícios(...)”. Aliás, lei histórica análoga vale para a sociedade civil, onde a defecção das autoridades gera inevitável ruína, segundo o enunciado de Camões nos Lusíadas: “um fraco rei faz fraca forte gente”.
Se a brutal erosão tivesse acontecido apenas no Brasil, teríamos de procurar só aqui a suas causas. Entretanto, a elevada redução percentual da população católica vem ocorrendo em quase todo o planeta, embora em níveis diversos. Para não me alongar em exemplos menciono apenas um, mas estrondosamente eloquente: o estudo efetuado em 1995, de acordo com o qual a maior parte da população de Roma abandonou a doutrina católica em matéria de fé e moral(2).
Qual, então, o fato cujo efeito consistiu em desencadear tão trágico desabamento?
A resposta se acha em artigo anterior desta coluna (“Ar Fresco ou Fumaça Diabólica”)(3): foi o Concílio Vaticano II, realizado entre os anos de 1962 e 1965. Muito embora não se possa imputar somente ao Concílio de João XXIII e Paulo VI a deserção de milhões de católicos, é indiscutível que a mutação conciliar corresponde à principal causa da contínua derrocada do catolicismo.
Sobre esse ponto seria possível transcrever inúmeros depoimentos insuspeitos (oriundos do Papado pós-Concílio, de Prelados, teólogos e estudiosos), mas para isso não há espaço; além do mais, já apontei alguns elementos informativos no artigo anterior.
Importa, também, e muito, inquirir como as inovações e reformas conciliares colaboraram para fragilizar o catolicismo, até levá-lo beira da inanição. Todavia, cuidando-se de temática bastante extensa, de porte a abranger vários livros, não será possível nestas curtas linhas ir além de uma esquemática síntese. E, a afirmação-síntese consiste em que o Concílio Vaticano II promoveu a ruptura com o ensinamento doutrinário bimilenar da Igreja, um afrouxamento da disciplina e o caos na liturgia. Portanto, ao contrário do que alegam os católicos “progressistas” moderados, cujo principal representante é o próprio Papa Bento XVI, o Concílio não se insere na continuidade da tradição católica(4), o que também seria fácil provar com inúmeros depoimentos, seja dos Sumos Pontífices pós-conciliares (Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI), de Cardeais que por autoridade de João XXIII e Paulo VI dirigiram a assembleia conciliar (Suenens e Döepfner) e de teólogos da mesma corrente de pensamento neomodernista (Von Balthasar, Kung, Congar, Chenu, Schillebeeckx, Rahner, Von Geusau e De Lubac).
A nota tônica do Concílio centrou-se na adaptação da Igreja ao mundo moderno, e às outras religiões, e, não obstante a ambigüidade da proposta de adaptação (aggiornamento, em língua italiana, palavra usada para identificar a mudança), ou, mais exatamente, pela contradição transparente ínsita em tal adaptação, criou-se o caos criteriológico e a crise de fé e de moral nos meios católicos. Tome-se como referência o ecumenismo e o interconfessionalismo: se a Igreja Católica não é a única Igreja de Cristo (como dizem os teólogos progressistas), e, “todas as religiões são boas”, por qual motivo alguém deveria permanecer católico? Afinal, a convicção inabalável é inerente à fé católica, como ensinou o apóstolo São Paulo. Despojados de seu “sistema imunológico” na esfera espiritual, os católicos sucumbiram na revolução cultural e comportamental que sobreveio logo depois do aludido Concílio (a Revolução Sexual de 1966 e a Revolução Cultural iniciada em 1968), como se estivessem acometidos de uma singular espécie de AIDS(5).
No caso específico do Brasil, e de outras nações latino-americanas, um desdobramento da corrente de pensamento progressista conhecido por “teologia da libertação” (nascida da teologia política de J. B. Metz) exacerbou os estragos produzidos pelos textos, pelo espírito de tais textos, e pelo pensamento de fundo dos articuladores do Concílio Vaticano II. Essa particularidade foi abordada em recente trabalho de Luiz Solimeo(6), para quem os católicos “vão procurar alhures as palavras de conforto da religião e de guia moral para sua vida”, porque “cansados dessa ‘religião desalienada’, revolucionária e materialista centrada em questões econômicas e sociais”, provinda da pseudo-teologia da libertação, instigadora da luta de classes, caudatária do socialismo e do estruturalismo, que se embutiu dentro da Igreja Católica. E, que continua a produzir desvios como se vê do documento emanado dos Bispos da Amazônia no último dia 12 de julho(7).
Assim, enquanto o Concílio Vaticano II não for rigorosamente revisto, e, provavelmente anulado, com o retorno da Igreja à sua identidade única, e com a restituição do carisma que lhe imprimiu o Divino Salvador, persistirá o enfraquecimento da religião católica, seja pela perda de fiéis, seja pela tibieza, laxismo, e confusão dos que nela permanecem. A sangria de membros - induzida pelos inimigos internos - trouxe à Igreja danos muito maiores do que todas as investidas de seus inimigos externos.
* O autor é advogado e pecuarista.
(1)“Catolicismo” n° 738, abril de 2012.
(2)“O Estado de S. Paulo”, 11.05.95.
(3)http://www.jornalnovafronteira.com.br/?p=MConteudo&i=3482
(4)Mark Stabinski “The Impossible Hermeutics of Continuity” , em http://www.traditioninaction.org/HotTopics/b01yCrisis_Continuity_Stabinski.html
(5)http://www.traditioninaction.org/bkreviews/G_028_MW_Arnold.html
(6)http://www.ipco.org.br/home/noticias/os-amargos-frutos-da-teologia-da-libertacao-esvaziamento-da-igreja-catolica-no-brasil#more-12888
(7)“O Grito dos Povos da Amazônia”, em http://www.zenit.org/article-30810?l=portuguese
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