Emigração para o Brasil

Publicada em 20/02/2018 às 14:25

 

Por Humberto Pinho da Silva – Porto/Portugal

Penso que é do vosso conhecimento, pelo menos dos meus leitores – se os tiver, – que sou casado, há mais de quarenta anos, com paulistana.

O avô de minha mulher, emigrou para o Brasil, no início do século XX, após concluir o curso de “Comércio”, numa escola que ficava junto ao Palácio da Bolsa, no Porto.

Emigrou, porque lhe disseram: que nesse país, era fácil enriquecer. Embarcou num velho navio, juntamente com outros, que buscavam vida melhor, com destino a Santos.

Rapidamente verificou, que a terra de Santa Cruz, não era o paraíso esperado; mesmo assim, chegou a industrial. Azares e infortúnios, levaram-no a perder parte do que conseguiu, o que não admira, porque era intelectual, e dedicava-se às “Letras”; caminho certo para empobrecer alegremente.

Estando a conversar, com ele, no “jardim-de-inverno”, na confortável casa de Vila Mariana, narrou-me, a traços largos, a sua história.

Perguntei-lhe, a razão de nunca ter vindo a Portugal:

Olhou-me fixamente, com os inquietos e paternais olhos verdes, e, após segundos de silêncio, disse-me, em doce voz, levemente cantada e conselheira:

– “Estou velho!… Já não vale a pena!… Depois, já não vivem os que conheci. Estive sempre à espera de dias melhores… assim fiquei por aqui, pensando nos que deixei…”

Camilo – considerado Mestre dos mestres da literatura portuguesa por Vasco Botelho de Amaral (*) – incluía, nos seus romances, quase sempre, o “brasileiro”, que regressava à terra natal, abastado de bens e de anos. Em regra, casava com jovem, por vezes, fidalga, filha de ilustres nobres arruinados.

Mas a maioria dos que partiam e partem, nunca regressavam, nem regressam, porque não queriam, nem querem, que se saiba, que não alcançaram o sucesso desejado.

Silva Pinto, narra, com azedume: “No Brasil”, as tristes desventuras de muitos que desembarcaram no Rio: Ao famoso Ator Justiniano Nobre de Faria, foi encontrá-lo como humilde carregador; e ao professor Franco (que introduziu, no Brasil, o método de leitura de João de Deus,) segundo escreveu: “Só pedia, aos cafres, em troca da luz que lhes levava, o pão de casa dia”.

Há anos, indo eu, do Tua para Vila Flor, em tarde de calor tórrido (com o asfalto da estrada, a ferver,) na traquitana da Carreira. Sentou-se, ao meu lado “brasileiro”, de meia-idade, trajado de claro e chapéu panamá; ostentava, entre os grossos e ásperos dedos, várias notes de mil escudos!…

Saiu em Carrazeda de Ansiães, muito hirto, muito sério, muito emproado… com as notas bem visíveis!…

A vida da maioria dos emigrantes não foi fácil (basta ler a “Selva” e os “Emigrantes”, de Ferreira de Castro,) e ainda não é, apesar de agora, serem mais cultos, e haver leis que os protegem.

Muitos, após ásperas e humilhantes desventuras, terminam na miséria; e é, muitas vezes, é em extremava miséria, que morrem, longe da família e dos que lhe querem bem.

Nos anos noventa, amigo meu, sabendo que ia em viagem para São Paulo, pediu-me para entregar certa quantia, a irmão, que vivia no Rio.

Prontamente aceitei, acrescentando: que me deslocaria lá, para entregar-lhe pessoalmente.

Muito retraído, quase em cochicho, disse-me: que enviasse, o dinheiro, pelo correio. “É que vive numa favela, em grande miséria…”

Assim fiz.

Todavia, há, quem conseguiu e consiga, singrar, em terra estranha, tornando-se: importante empresário, político influente, e comerciante de sucesso.

Infelizmente, são exceções. A maioria já se sente feliz, poder vegetar de cabeça erguida.

Tudo depende de sorte… e espírito de iniciava…; e de outras coisas, que, por decoro, não devo revelar.

(*) “Glossário Critico de Dificuldades da Língua Portuguesa”

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