Depois das eleições a luta continua

Publicada em 05/11/2018 às 11:02

Ronaldo Ausone Lupinacci*

Somos por natureza inclinados a pensar no futuro, talvez pelo instinto da sobrevivência. Isso tanto mais se nota quando acontece um fato muito relevante, que tem importantes consequências a curto, médio e longo prazo. As eleições de 2018 se enquadram na categoria de fato relevante porque apontam para mudança radical (ou quase tanto) dos rumos na vida do País. Daí sermos tentados a especular sobre quais mudanças advirão.

A lógica sugere que elas serão conexas às circunstâncias que determinaram os resultados das eleições. Importa, pois, examinar aquelas circunstâncias e os resultados que se verificaram.

Jair Bolsonaro foi eleito com elevada votação. Não gozava de maior notoriedade, apesar de mais de duas décadas na atividade política. Não estava filiado a partido político influente. Não dispunha de recursos financeiros. Foi, permanentemente, hostilizado pelos grandes conglomerados de comunicação. Proferia discurso substancialmente diferente daquele usual nos meios políticos. O que o teria levado a tão meteórica e triunfante ascensão? A meu ver, exatamente o discurso que ecoou favoravelmente em vasta parcela da opinião pública, já rompida com o “Establishment” político desde pelo menos 2013. Segundo o “brasilianista” Thimothy J. Power, professor da Universidade de Oxford, Bolsonaro soube extrair das conversas de “sala de jantar” o pensamento conservador que vinha fermentando no Brasil.

Como o próprio Bolsonaro admitiu, e, aliás, parece haver um consenso a respeito, sua eficaz propaganda circulou preponderantemente pelas redes sociais e pela ação boca-ouvido. A sintonia entre o candidato e eleitorado esteve situada em ideias a respeito da religião, da família, da segurança, da moralidade, da liberdade de empreender, do repúdio aos tributos extorsivos, do repúdio a comportamentos libertários (como o desrespeito a professores), da convicção que a prosperidade depende do respeito ao direito de propriedade, entre outros assuntos. Como nota tônica prevaleceu o repúdio às seitas anticristãs, notadamente o comunismo. Em síntese, e, em linhas gerais, venceu o ideário da chamada direita liberal ou conservadora. Caíram as principais oligarquias (PT, PSDB e PMDB).

Ao mesmo tempo em que Bolsonaro foi guindado à Presidência da República, seus correligionários obtiveram inesperado êxito na composição dos Parlamentos, a demonstrar que desta vez o voto não foi personalista, mas motivado por razões ideológicas. Este aspecto sugere que não foi Bolsonaro quem arrastou o eleitorado, mas exatamente o contrário: foi o eleitorado quem arrastou Bolsonaro e os candidatos com ele afinados.

Este forte movimento de opinião pública, se expressa sinais de consistência, carrega, também, algumas debilidades nas quais não vou me deter. Esta força tenderá a influenciar as iniciativas nas áreas dos Poderes Executivo e Legislativo, e, ao mesmo tempo, se opor às propostas dos adversários políticos ou ideológicos. No conjunto ficará reduzido o espaço de manobras das esquerdas, salvo no Poder Judiciário, por enquanto. E, é, exatamente no Poder Togado, que vejo a principal ameaça de avanço do processo revolucionário. Neste sentido foi sintomática a fala do Ministro Barroso, do Supremo Tribunal Federal, na qual a pretexto de proteção aos direitos fundamentais, afirmou a existência de consenso no tribunal “em favor das mulheres, dos negros, dos gays, das populações indígenas, de transgêneros, da liberdade de expressão”, em outras palavras, de minorias que segundo a teoria neomarxista compõe o novo proletariado, substituto dos operários e camponeses como aríete da luta de classes.

Afora o ativismo judicial, sobretudo provindo do Supremo Tribunal Federal, se pode formular a hipótese de recrudescimento da agitação por organismos manipulados pelas esquerdas tais como o MST, a Via Campesina, CONTAG, CPT e CIMI, sindicatos, entidades estudantis e outras minorias organizadas tais como as ONGS ambientalistas. Entretanto, este mecanismo – que no passado funcionava eficazmente para promover a discórdia, a revolução social, a guerra civil e o golpe para tomada do poder – hoje parece bastante desgastado.

Uma terceira via de assalto ao Brasil pelas esquerdas parece-me que pode vir de fatores externos. Não se pode excluir a possibilidade que diante do fracasso de suas forças internas, as esquerdas movam suas peças de xadrez no tabuleiro externo, seja para promover estrangulamento econômico, segundo se infere de matéria publicada no jornal comunista China Daily, seja para promover uma intervenção na Amazônia com fundamento em falsas teses ambientalistas, ou ainda alguma outra iniciativa para desestabilizar a América do Sul, como tentaram com a Guerra das Malvinas em 1982. Esta hipótese poderá parecer cerebrina às pessoas que desconhecem o enorme peso que o Brasil tem no cenário internacional, mas foi ratificada pelo destaque que se deu no exterior aos resultados das eleições de 2018.

É previsível que a mídia mantenha a guerra de desinformação que moveu ao eleitorado de Bolsonaro, ainda que de modo velado. A guerra psicológica revolucionária se serve de armas tais como a mentira sob as diversificadas formas de calúnia, difamação, intrigas para perturbar e desorientar os espíritos. Concretamente, isso se daria com o intuito de engrossar a oposição civil ao novo governo. Para exemplificar vem à lembrança a falsa acusação recente feita à Colômbia (desmentida pelas respectivas autoridades) de que estaria montando um plano para, com o Brasil, fazer guerra à Venezuela.

Em resumo, a guerra incruenta para afastar as esquerdas do poder não terminou, pois elas não se conformaram à derrota, e estão, agora, urdindo seus novos planos para recuperar o terreno perdido. Neste ambiente de paz armada teremos de batalhar para que o os novos dirigentes do Estado consigam realizar as reformas indispensáveis ao saneamento moral, cultural, político e econômico. Restabelecer o respeito à família, extirpar a corrupção, eliminar o déficit público, estimular a liberdade de empreender até agora sufocada pela burocracia, suprimir impostos extorsivos e confiscatórios, reprimir o crime em todas as suas formas, restaurar a disciplina nas escolas, recolocar a política externa no eixo histórico, implantar reforma política séria, privatizar empresas estatais, melhorar os serviços públicos em geral, e tantas outras providências desejadas pela maioria silenciosa que elegeu os políticos sintonizados com as principais propostas de Jair Bolsonaro.

É preciso considerar, também, que estaremos sujeitos a decepções. Afinal, o elemento político nacional não irá se regenerar de uma hora para outra. Ademais, alguns são partidários do quanto pior melhor, e, a cegueira de boa parte do eleitorado lhes assegura sobrevivência. Por outro lado nada de grandioso se faz de repente. Teremos de pagar o preço da paciência e da espera. Plínio Correa de Oliveira disse que se o PT chegasse ao poder o Brasil levaria 50 anos para consertar os estragos…

Por tudo isso a luta continua, apesar dos naturais anseios de distensão que se seguem aos períodos conturbados na vida nacional. O maior perigo reside em baixar a guarda.

* O autor é advogado e pecuarista.

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