Bolsonaro e a contrarrevolução conservadora

Publicada em 25/09/2018 às 10:00

Ronaldo Ausone Lupinacci*

A perfeita compreensão da ideia mestra deste artigo depende de alguns pressupostos.

O primeiro deles consiste na noção do que seja “Establishment”, ou seu equivalente em português (“Sistema”) pouco utilizado, porém, na linguagem especializada. Portanto, não recorro ao inglês por pedantismo, mas porque os que tratam do assunto sobre o qual incide a palavra se valem do termo em língua inglesa, uma vez que a tradução pura e simples não traz a conotação pejorativa com a qual é empregada (“estabelecimento”)¹. Por “Establishment” se designa o conjunto de forças ideológicas (religiosas e filosóficas), políticas, econômicas, publicitárias (a mídia) que, embora sendo minoria, governam, em diversos níveis, a sociedade local, regional, nacional e internacional. O “Establishment” veio mudando ao longo do tempo e sua atual composição se pode dizer que data da segunda metade do século passado.

O segundo pressuposto denominei contra-revolução conservadora. Sobre ela é preciso falar um pouco mais. A rigor o adjetivo “conservadora” se mostra contraditório ao que se entende por Contra-Revolução. Na Filosofia da História, Contra-Revolução significa um movimento oposto à Revolução, de modo que não pode ser “conservadora”, isto é, tendente a manter as coisas como estão. E, por Revolução se nomeia o conjunto de transformações, religiosas, filosóficas, culturais, políticas e comportamentais que vieram surgindo lentamente a partir do século XV, aproximadamente, visando destruir a Civilização Cristã. Por isso, talvez fosse mais exato falar em resistência conservadora, expressão que, todavia, também não exprime com absoluta precisão o fenômeno do qual se ocupam estas linhas. De qualquer forma, descontada a imprecisão relativa das palavras, o fenômeno que desejo focalizar corresponde à tendência crescente em rejeitar os avanços da Revolução e até mesmo a própria Revolução em sua essência metafísica, igualitária e libertária. Portanto rejeitar o comunismo, o socialismo, o estatismo, o ateísmo, o igualitarismo em suas várias facetas, o anarquismo, e o permissivismo conexo às iniciativas tendentes à dissolução da família.

Para tornar mais claro o assunto convém exemplificar. Um dos indicadores do fortalecimento do conservadorismo (mas não o único) se observa nos resultados das eleições de diversos países. A começar pelos Estados Unidos, dada a sua importância. Lá a guinada conservadora começou com Ronald Reagan e se firmou, mais recentemente, com a eleição de Donald Trump. Mas, fatos análogos vêm ocorrendo na Europa, e, um dos mais significativos foi representado pelo “Brexit”, ou seja, a determinação do povo britânico de sair da União Européia, e, assim manter sua soberania afastando-se do projeto revolucionário do governo socialista mundial. A ascensão de políticos conservadores pode ser observada na França (votação elevada de Marine Le Pen), na Itália (ascensão da direita e do movimento anti-establishment), na Polônia (vitória da direita “eurocética” no pleito de 2015), na Áustria (vitória de Kurz, em 2017), e, também na América Latina. Dentre nossos vizinhos que emitiram sinais conservadores podemos citar o Paraguai, a Argentina, o Peru, e, muito principalmente a Colômbia onde a população rejeitou um embuste dos mais sujos, tramado com pressão internacional (do Vaticano inclusive), e que iria dar total liberdade de ação aos comunistas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCS).

Entretanto existem outros sinais inequívocos de apreço aos valores morais desprezados pela cultura relativista do Establishment. Os mais nítidos se relacionam ao repúdio ao aborto e às uniões homossexuais. Para citar um fato recentíssimo, menciono a marcha pela vida realizada na Alemanha em 22 do corrente contra o aborto, que contou com uma participação muito maior do que nos anos anteriores, para desagrado da imprensa vinculada ao Establishment².

No Brasil indícios do fortalecimento do conservadorismo se acentuaram a partir do ano de 2013, com as gigantescas manifestações populares de protesto nitidamente hostis ao Establishment e ao seu governo títere. O movimento prosseguiu até obter a destituição da presidente Dilma Roussef. Na motivação dos opositores eram visíveis fundamentos morais, políticos, econômicos e culturais em geral adversos ao “politicamente correto”.

Mas, me chamam a atenção dois aspectos do neoconservadorismo. O primeiro é que inexiste uma liderança mundial a guiá-lo. Protestos, manifestações, eclodem nos mais diversos países impulsionados por fatores locais e por agentes locais, e, embora exista conexão entre os assuntos de fundo ideológico nos diversos países, não transparece a existência de agentes coordenados entre si. O segundo é o de que não transparece, também, uma doutrina clara, até porque os conservadores embora majoritariamente cristãos não professam uma única religião, e, nem mesmo um único credo filosófico definido. Em que pese tal circunstância há preocupação comum com valores tais como a religião, família, e direitos naturais tais como a propriedade e a liberdade.

De qualquer forma a pujança do movimento conservador, mesmo carente (por ora) de uma liderança intelectual planetária e de doutrina monolítica, vem ficando evidente, e, aqui no Brasil, o fato que prova tal afirmação reside na espantosa ascensão da candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da República, pois segundo algumas fontes ele tem chance de se eleger já no primeiro turno. Esta pujança se infere, também, de fatos ocorridos no campo oposto, como o fracasso vergonhoso das caravanas de apoio a Lula, realizadas há pouco tempo atrás, e, também a aceitação pacífica, e tranquila da imensa maioria da população da prisão o líder do PT, ao contrário do que alardeavam certas vozes.

As cogitações deste colunista, todavia não se voltam principalmente para a temática político-eleitoral. Qualquer que seja o resultado da eleição haverá uma consolidação do movimento conservador o que se depreende não só dos números divulgados pelas pesquisas eleitorais, mas, sobretudo, do entusiasmo e do dinamismo dos que se engajaram em passeatas, carreatas, mensagens nas redes sociais e outras manifestações de apoio a Bolsonaro. Em outras palavras os números das pesquisas afirmam que a corrente conservadora se tornou a principal força política do País. Para isso também contribuiu a derrocada trágica de países próximos dominados pelo comunismo como a Venezuela e a Nicarágua, sem falar de Cuba, permanentemente afligida pela miséria, pela estagnação e pela opressão. Tudo indica, então, que não se trata de tendência efêmera, episódica, porque se desenvolve há pelo menos cinco anos, e aparece em quase todo (ou em todo) o mundo ocidental. E nisso há uma advertência implícita para as esquerdas: cuidado! Mesmo que vençam as eleições graças às costumeiras trapaças políticas enfrentarão doravante cerrada oposição.

A seita que paradigmaticamente representa a Revolução é o comunismo. Este veio enfraquecendo em sua capacidade de angariar apoios e adesões, e só se expandiu por ocupar posições chave na sociedade ocidental, isto é, no respectivo “Establishment”, e por desenvolver com inegável astúcia a guerra psicológica. Agora começa a ficar clara a redução de seu poder de controlar a opinião pública. Daí a fúria que emana de comentários, artigos de jornal, entrevistas contra os conservadores e aqueles que bem ou mal os representam. E, dentre estes últimos o candidato Bolsonaro. Atirando em Bolsonaro, como em Trump, ou nos líderes da direita europeia, o “Establishment” visa desmotivar e desestimular as bases populares neoconservadoras que aqueles políticos por convicção ou por oportunismo se propuseram a liderar. Para mim significa o temor da derrota que se aproxima.

* O autor é advogado e pecuarista.

¹http://www.teclasap.com.br/establishment/
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