Chapeuzinho no Pelô: uma fábula temperada com magia e dendê

Publicada em 14/08/2018 às 11:10

Por Jana Lauxen*

Imagine se a Chapeuzinho Vermelho, depois de passear pela floresta levando doces para a vovozinha, confrontar o Lobo Mau e viver a aventura que todos nós conhecemos, viesse passear pelo Pelourinho, trazendo na cesta um pouco do Português que aprendeu com os personagens de Monteiro Lobato.

Esta é a inusitada introdução da obra infantil Chapeuzinho no Pelô, 7º livro da escritora baiana Palmira Heine, lançado dia 21 de julho no Stand Clooby do Livro, no Shopping Barra, em Salvador. O livro, de cara, chamou minha atenção pela peculiaridade do enredo, e por trazer e adaptar para a cultura brasileira um dos contos infantis mais famosos de todos os tempos.

Na versão de Palmira Heine, Chapeuzinho e sua família, incluindo a famosa vovozinha, resolvem viajar para o Brasil, a fim de relaxar após enfrentar e derrotar o temível Lobo Mau. A primeira parada é Salvador, claro, onde mais poderia ser? Porém, o que Chapeuzinho não sabe é que Dom Lobão, o vingativo irmão do Lobo Mau, a seguiu, viajando no avião escondido dentro de uma mala. Ao desembarcarem, em meio a casinhas e casarões cheios de cores, batuques e ladeiras, Chapeuzinho e Dom Lobão vão encarar uma aventura no ritmo do berimbau.

As ilustrações da obra ficaram por conta do artista e designer baiano Tiago (Sansou) Santos de Souza, que captou no traço e no tom a brasilidade impressa por Palmira na história, criando um casamento perfeito entre texto e desenho, e carregando o leitor na fantástica viagem de Chapeuzinho Vermelho por Salvador.

Chapeuzinho no Pelô é um livro de muitos méritos. Palmira Heine conseguiu transformar com roupagens novas, contemporâneas e divertidas um clássico da literatura infantil, mantendo a essência do conto original, porém acrescentando os temperos, cenários e personagens típicos da Bahia e do Brasil. Apresentando uma nova perspectiva para a fábula, aproximou-se da realidade das nossas crianças, criando uma ponte fundamental entre a ficção e os fatos reais.

Acredito, inclusive, que este seja o maior trunfo de Chapeuzinho no Pelô: a capacidade de representar o pequeno leitor brasileiro, que pode literalmente se enxergar nas páginas do livro, reconhecendo o seu contexto e experimentando a identificação necessária para, ele também, se tornar um personagem da narrativa. Muito já foi dito sobre a importância da representatividade para a autoestima de nossas crianças, e é fato que Palmira foi feliz e certeira ao colocar, em sua obra, um espelho lúdico e belo de nosso país.

Além de Chapeuzinho, Dom Lobão e Zeca Poeira, o capoeirista, também existe um personagem no livro tão onipresente quanto o próprio leitor, que ali se vê e reconhece: a Bahia, com suas peculiaridades, sua cultura viva e pulsante, seus sabores extraordinários, sua beleza alegre e múltipla.

A Bahia está em cada linha de Chapeuzinho no Pelô: tem capoeira, acarajé, Itapuã, fitinha do Senhor do Bonfim, camarão, vatapá, caruru e sarapatel, e até a Casa de Jorge Amado, o escritor que tão bem traduziu a Bahia em letras e livros. E, claro, tem o Pelourinho, onde Chapeuzinho vive sua nova e apimentada aventura!

Indicado para crianças entre seis e dez anos, Chapeuzinho no Pelô é um livro que os nossos pequenos leitores merecem conhecer para se reconhecer.

Sem contar que não é todo dia que podemos embarcar em uma fábula temperada com magia e dendê, mostrando para Chapeuzinho Vermelho e o Lobo o que, afinal, a Bahia tem.

* Jana Lauxen tem 33 anos, é editora e escritora, autora dos livros Uma Carta por Benjamin (2009), O Túmulo do Ladrão (2013) e O Duplo da Terra (2016). Ministra palestras, cursos e oficinas literárias, e é colunista dos jornais O Informativo Regional (Sananduva/RS), A Folha (Não-Me-Toque/RS) e Tribuna (Carazinho/RS), além de colaboradora da revista Café Espacial.

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