O que são as fake news e por que acreditamos nelas

Publicada em 20/08/2018 às 10:27

*Fabio Claudio Tropea
ftropea8@msn.com
fabioclaudiotropea@gmail.com

Lemos na Wikipédia que ‘Fake New’ (literalmente ‘notícia falsa’) é um termo nascido nos Estados Unidos no ano 2017!!! Uma pergunta surge imediata: nos anos anteriores, ninguém publicava ou leia notícias falsas? Na realidade, o problema das notícias falsas é velho como o ser humano e já Aristóteles, há 2300 anos, estudou na retórica o mecanismo de circulação de notícias falsas. Ele afirmava que na comunicação pública não trabalha a análise lógica mas o critério da verossimilitude: para que algo seja considerado verdade, não é suficiente que seja verdade senão que precisa também ‘parecer verdade’ e não ‘parecer mentira’.

Se aplicamos esse velho e sempre válido critério, a fake new não é propriamente uma notícia falsa mas ‘mentirosa’, o seja: não é verdade mas quer parecer verdade. O falsificador de dinheiro não faz notas ‘falsas’, mas notas mentirosas, porque querer dar uma ilusão de verdade aos ingênuos receptores da nota. E quem coloca silicone no seio quer dar também uma impressão de verdade, ficando com um seio que parece firme e jovem, não é?

Agora me deixem entrar no terreno da internet. A pergunta que muitos se fazem é: por que na rede circulam tantas notícias falsas (o seja mentirosas)? A resposta mais imediata é que internet nos deu a todos um presente maravilhoso, a possibilidade de fazer escutar a nossa voz. Na internet, todos somos jornalistas, palestrantes e intelectuais, e podemos fazer circular as nossas opiniões sobre qualquer tema. A possibilidade de espalhar notícias sem comprovação de veracidade se multiplicou exponencialmente. Volto ao velho filosofo grego, quem estudou muito o tema dos boatos (rumores) e da facilidade com a que eles circulam na sociedade. Ele dizia que o boato é muito eficaz por duas razões. Primeiro, porque qualquer um pode espalhá-lo sem assumir a responsabilidade do que diz. O boato é um ‘se diz que’, não um ‘eu digo que’. Frente ao boato, somos todos como Pôncio Pilatos, nos lavamos as mãos do que acabamos de falar. Segundo, o velho filósofo acreditava que os humanos somos maldizentes por natureza, amamos insinuar, manchar a reputação dos outros por inveja, frivolidade o espírito de desobediência contra sobre tudo as pessoas poderosas e socialmente elevadas. “Contra a maledicência não há muralhas”, dizia Molière.

O fenômeno das notícias falsas contém dois aspetos relacionados que nas redes sociais da Internet funcionam ambos muito bem. A desinformação e o que os ingleses chamam de ‘misinformation’. A primeira é a criação deliberada e a difusão de informações mentirosas e a segunda o compartilhamento aparentemente inocente dessas informações mentirosas.

Os governos e a mídia oficial (por exemplo a Globo) estão obviamente mais interessados no primeiro fenômeno, ou seja, a difusão intencional e tecnologicamente muito avançada de notícias ‘falsas’ criadas para influir na formação de opinião pública.

Em um próximo artigo, prometo aprofundar este tema, que mostra hoje um panorama obscuro e quase terrificante de novos manipuladores e os sistemas que podem influir pesadamente até na eleição de um Presidente de qualquer País do mundo. Aqui queria focar em outro aspecto dessa realidade, isto é a facilidade com a qual nós acreditamos e compartilhamos as notícias que lemos nas redes. Antes, a gente falou da natureza humana, agora me deixem ser mais científico. Os especialista em neurociência nos dizem que o cérebro humano, quando imagina coisas, produz oxitocina, o chamado hormônio da felicidade. O mecanismo que faz tão apetecíveis e eficazes as fake news é justamente isso. Não o verdadeiro e o falso, só um estímulo gratificante. Não é importante a veridicidade da notícia, mas o fato que nós (eu e quem pensa como eu) estamos suspeitando que… As notícias absurdas podem nos aparecer plausíveis por aquilo que os psicólogos chamam de ‘blending (mistura) emocional’. Quando estamos online, nós ubicamos em um estado mental similar ao sonho de olhos abertos. Não é nenhuma casualidade que a quase totalidade das fake news nos chegam online. O que de verdade conta numa notícia na rede, muito mais do que nos velhos meios como a imprensa (muito mais racional e analítica), é a intensidade do envolvimento, não os fatos.

A conclusão a qual podemos chegar é decepcionante, porque significa admitir que já dos fatos nós sabemos bem pouco, depois de tantos rebotes e manipulações que cada fato receberá antes de chegar até nós. Internet, que tenha sido apresentada como o lugar aonde o receptor finalmente podia ser ativo, se pode revelar para muitas pessoas como a continuação de um sonho que pretende evadir de uma realidade complexa, difícil demais de entender.

* Italiano por nascimento e cidadão do mundo por vocação, sou semiólogo, escritor, docente, palestrante e analista das linguagens da comunicação. Sou graduado em Sociologia e Jornalismo em Urbino (Itália) e doutor em Comunicação pela UAB, Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha), cidade aonde residi e trabalhei durante mais de 25 anos.
A minha carreira, em poucas linhas: depois da graduação, entrei estagiário e assistente na universidade de Urbino. Depois ganhei uma bolsa na Espanha para estudar o sistema cultural das midia na fase de transição do país e me estabelecei definitivamente em Barcelona, desempenhando durante muitos anos atividade de professor universitário de semiótica, comunicação e educação e, por outro lado, consultor-analista profissional, nos campos das mídia, o marketing de produto e serviço e especialmente o mix de comunicação que compõe o branding.
Há três anos, por razões familiares, me mudei para o Brasil (Barreiras, Bahia). Aqui, continuo a minha atividade como consultor/pesquisador na área de comunicação e marketing, especialmente em São Paulo, e como docente, no Instituto Europeu de Design (IED, Rio de Janeiro e Brasília), a Universidade Dom Pedro II de Barreiras, a universidade IESB de Brasília, e a FAESA de Vitoria (Espírito Santo).

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