Almas sem rumo, golpe e almas com rumo

Publicada em 24/10/2017 às 15:02

 

Ronaldo Ausone Lupinacci*

É público e notório que os brasileiros estão descontentes com as suas autoridades políticas. Mais do que descontentes, estão moralmente rompidos com tais autoridades. Ao mesmo tempo, se acham indignados pelas ingerências indevidas, deficiências e ineficiências do Estado, e, pela corrupção desenfreada. Dados de pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostram rejeição de 78% aos políticos (apoio de 8,9%), rejeição de 76% aos partidos (apoio de 7,3%). Neste ambiente de insatisfação generalizada surgiu um clamor crescente pela intervenção militar (43,1% se manifestaram a favor em enquete da Paraná Pesquisas), e – fato conexo – observa-se o fortalecimento da candidatura de Jair Bolsonaro para as eleições presidenciais de 2018.

Apesar das simpatias e admiração pela classe militar, vejo com muitas reservas a interferência da farda naquilo que não lhe é pertinente. Mas, como já aventei em artigo anterior, tal interferência mais dia menos dia se tornará inevitável, na medida em que a marcha para o caos for chegando ao clímax. E, está chegando ao clímax, alimentada por dois fatores: a cegueira (e tudo que lhe é correlato) da parte dos políticos, e, a confusão que medra na opinião pública.

Sobre a cegueira dos políticos não há muito o que se falar, tão evidente que se mostra. Continuam enroscados em discussões estéreis acerca de uma reforma que não corrige praticamente nada nesta falsa democracia representativa, e, enredados em seus interesses subalternos. Entretanto, é oportuna a investigação sobre o estado de desorientação da opinião pública porque se houver mudança sadia no pensamento e na mentalidade da população o Pais, com certeza, irá se reerguer.

Configura-se a incoerência no estado de espírito de uma pessoa, que se acha agastada com determinada situação adversa, e nada realiza de eficaz para modificá-la. A apatia pode decorrer da indolência, mas, também da falta de rumo. No caso brasileiro, concorrem os dois fatores, mas darei ênfase à falta de rumo.

Vou tentar esclarecer melhor o que afirmei. Qualquer ser humano para atingir o reduzido grau de felicidade possível na vida terrena deve almejar a vida eterna, quando então – se merecer, bem entendido – viverá para sempre na presença de Deus, na plenitude da felicidade. Mas, o objetivo pressupõe retidão de conduta, vale dizer a procura da “porta estreita” sobre a qual nos falou o Divino Mestre. A trágica decadência religiosa que se acentuou a partir dos dois séculos anteriores nos ambientes católicos conduziu tanto eclesiásticos como leigos ao paulatino distanciamento da sã doutrina e do comportamento moral irrepreensível. O catolicismo, que até o início da segunda metade do século XX guiava e unia a imensa maioria dos brasileiros entrou em processo de autodemolição. Se, hoje, ainda a maioria se diz católica, o é apenas de nome. Outros tantos debandaram para seitas ditas “evangélicas” e “caça níqueis”, ou, na realidade nua e crua, mesmo sem professar o ateísmo como crença, se apartaram de qualquer religião. Em síntese, ficamos sem bússola.

Distanciando-se, assim, da religião os brasileiros – e não só os brasileiros, mas todos os que outrora compunham a civilização cristã – abandonaram, também, os princípios regedores da organização política e social conforme aos preceitos divinos. Vivem sem convicções sólidas, imersos no relativismo, influenciados mais ou menos intensamente por doutrinas malsãs. Ora, a perda de rumo na vida individual conduz à perda de rumo nas ações coletivas. Num lugar em que cada um fala uma língua, ninguém se entende, e, da confusão não pode brotar unidade de pensamento nem tampouco programa de ação eficaz. Creio que, apesar de brevíssimo, este resumo explica o atoleiro em que nos encontramos. Vejo cientistas e comentaristas políticos andando em círculos, focados em miudezas e superficialidades, incapazes de traçar soluções consensuais, voltando-se para “operações tapa-buraco” porque não enxergam a patologia que nasceu das raízes do sistema, até porque são republicanos.

Volto, agora, ao tema da intervenção militar. Qualquer golpe de estado depende necessariamente de retaguarda armada, mesmo se articulado por civis. Além do mais, golpe de estado implica quase necessariamente em ditadura, ainda que temporária. E, se tal ditadura não eliminar na raiz os males da organização institucional deposta – e, pior, caso se perpetue – não trará qualquer benefício. Ora, isso já aconteceu por aqui mais de uma vez.

A primeira intervenção militar ocorreu com a proclamação da república em 1889, e, por isso mesmo patenteou-se desastrosa. A segunda deu-se com o governo “provisório” de Getúlio Vargas em 1930, quando se instaurou um regime pior do que a velha república dos coronéis, e, acabou gerando uma guerra civil (a Revolução Constitucionalista de 1932). Ainda Getúlio, em 1937 deu outro golpe para se manter no poder, e, prolongar sua ação malfazeja. O golpe de estado de 1964 precisa ser analisado de modo mais matizado. Foi benéfico porque impediu a implantação de um regime de feitio comunista (a república sindicalista). Todavia, os governos que dele provieram cometeram graves erros cujas consequências, ainda atualmente se produzem. Assim, por exemplo, a reforma agrária, o intervencionismo e o dirigismo na economia, a estatização, o autoritarismo pelo mecanismo de delegação de poderes (que inflou as atribuições de órgãos do Estado), e, deu origem à mastodôntica burocracia governamental.

Portanto, inexiste a garantia de que um golpe de estado que venha a depor os atuais dirigentes possa ser efetivamente benéfico. É uma incerteza, a depender de quem tomar as rédeas do poder. Argumentam os defensores da intervenção militar ser inútil esperar por brandas soluções legalistas se as instituições nacionais, todas, se acham viciadas, e ocupadas por pessoas desqualificadas. Concordo. Mas, segundo São Tomás de Aquino, é particularmente melindrosa a expulsão dos maus governantes porque outros piores podem se alçar ao poder, além do que, em tais situações traumáticas, surgem contendas no seio da sociedade, dividindo-a em facções. Consequentemente, enquanto for possível devemos batalhar por solução dentro do caminho institucional, o que em absoluto exclui intensa e enérgica pressão sobre os políticos. Pelo contrário, pressupõe atitudes firmes, decididas, públicas, sobretudo daqueles que desfrutam de influência na sociedade. Não me refiro aqui aos grandes conglomerados midiáticos, aos líderes do supercapitalismo, nem aos dirigentes de corporações profissionais, todos integrantes do Establishment. Tenho em vista as lideranças autênticas (e não aquelas plantadas) dispersas nas diferentes camadas sociais e nas diversas regiões.

Tudo indica que os militares não querem dar golpe ou participar de golpe. Já o disseram repetidas vezes, e, caso quisessem, teriam deposto a classe política há muito tempo, sem maior resistência da opinião pública, e, muito provavelmente, com o apoio largamente majoritário da população. Estão esperando que o elemento civil se encarregue do saneamento, segundo recentemente advertiram. Mas, a paciência tem limites.

Este contexto convida os homens de visão e de ação a pensar, a falar, e, se articular para dar rumo às almas sem rumo, e assim dar rumo ao País. Se não for para restaurar a monarquia em curto prazo – como desejam as almas com rumo – pelo menos para inserir um mínimo de decência, de autenticidade, de funcionalidade, e, de credibilidade à república. O tempo vai se esgotando.

* O autor é advogado e pecuarista.

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